segunda-feira, 9 de maio de 2011

Elefante

Imagem: Fernanda Franco

Quantas balas, quantas rajadas,
quantas perfurações
este corpo suporta,

até que a mísera massa
desta carne se desfaça
até que vaze todo líquido
de sua aorta?

E ainda será preciso,
importante, essencial
que faça tudo sentido,

que não se apresente uma falha,
que apareça ali uma palavra
ou a coisa se escangalha
e os dias serão perdidos,

as horas que corriam tão lisas,
e os relógios tão infalíveis
se desmontem quais brinquedos

manipulados por crianças
tão travessas quanto inexistentes.
Há muito não se criam crianças
a quem se possa meter medo.

Antes um mundo tão cheio de cores
como num caderno de desenho
de rabiscos infantis sem ordem,

tranquilas as figuras nele viviam
como suspensas num mundo
em paz com seu próprio absurdo
onde as hienas riem mas não mordem,

um mundo onde a infância possível
coloria ruas, casas e árvores
sem demandar explicação.

Agora as cores persistem,
um tanto embotadas, apenas
para obscurecer o fato irrazoável
e calar o gemido sem remissão

( - Por gentileza, seu moço,
não me mate, não! ).

Texto: Guilherme Preger 

2 comentários:

  1. Poema de rara beleza em literatura nestes dias de hoje em sombras e tintas.
    Ps- deixo aqui link para meu livro de microcontos, vcs podem baixa-lo gratuitamente
    http://www.4shared.com/document/HxPO8l45/MAIS_UMA_DOSE.html

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