terça-feira, 26 de julho de 2011

Muito Além de uma Folha em Branco

Ok, tenho que escrever alguma coisa pro Sêmola. e já tô mega atrasada. e disse que ia mandar na sexta e neca. e tô zero inspiração. é foda isso...

E vou fazer o quê? escrever sobre a página em branco? sobre como não adianta noventa e nove transpiração se não rolar uma inspiração? nossa, vai ser incrível! como eu vou ser criativa! como eu vou ser original! escrever sobre o quê? escrever sobre o quê?

Sobre morte, como sempre. mas isso é meio óbvio, sempre escrevo sobre isso. mas escrever sobre morte não é tão simples assim, porque, afinal de contas, morte é morte, porra.

Mas ok, pra variar, vou escrever sobre o medo que eu tenho da morte, e sobre como isso me paralisa. da minha, dos outros, da morte em geral, assim, morte com m maiúsculo. e sobre como o meu segundo medo é virar mendiga. mas ok de novo, o medo de virar mendiga é consequência do medo da morte. hoje eu tenho menos medo de virar mendiga, é verdade. as coisas melhoraram um pouco dentro da minha cabeça – graças à minha analista, que inclusive acha muito curioso esse medo todo que eu tenho da morte; não exatamente curioso, mas um pouco inútil. eu também acho inútil, claro, porra, não sou burra, mas não consigo evitar...

Mas eu tava falando do segundo medo, do medo de virar mendiga. sempre tive medo de virar mendiga. de um dia ficar tão louca, tão louca que não rola nem um "institutionalized", só rola um "rua"! medo da morte > medo de ficar muito muito muito maluca > medo de virar mendiga! faz sentido... taí, mendiga ia ser uma meeeeeeganovidade no rol das esquisitices familiares. acho que não temos nenhum mendigo na família. gente maluca temos muita, de todas as espécies; pelo menos um espécime de cada doença e todas as comorbidades possíveis e impossíveis. mas mendigo acho que não rola, não. só que eu acho que meus amigos não me deixariam virar mendiga. iam intervir antes desse momento. ou a gente ia acabar marcando festa na praça...

É que mendigo tem uma coisa romântica, né? eu acho... alguém que abriu mão de tudo, da adequação, do pertencimento, da sanidade, e foi pra rua. é meio heroico, eu acho. mas isso de fora, claro. até chegar lá, o caminho não deve ser nada legal. deve ser um cu, na real. eu adoro aquele mendigo que passeia aqui pelas redondezas. ele tem um cabelão, é quase bonito, nunca interage com as pessoas, tá sempre lá no mundo dele, nunca pede nada, nunca leva nada. eu, se fosse mendiga, acho que ia ser que nem ele. não do tipo que fica sentado pedindo esmola – do tipo andarilho que revira lixo. eu tenho muita vontade de falar com ele, mas ainda não tive coragem. não sei se ele vai ficar puto, se vai me mandar à merda, se vai dar defeito - não tanto pra cima de mim, mas pra cima dele mesmo. a nossa relação já evoluiu bastante. no início sempre passava por ele e ficava olhando, até que ele começou a me olhar de volta. sempre trocávamos olhares quando nos cruzávamos na rua. um dia tomei coragem e numa dessas trocas de olhares sorri pra ele. ele passou direto. no outro dia em que nos encontramos, foi ele que sorriu pra mim. não um sorrisão, mas um leve sorriso. um sorriso de identificação, talvez? eu sorri de volta. e agora estamos assim. quando ele passa, eu sorrio, quando eu passo, ele sorri.

Outro dia, os farrapos que ele tava usando de calça não eram muito grandes e ele tava com as pernas quase todas cobertas mas com o pau e as bolas de fora. fiquei com um misto de pena, tipo que merda, e um misto de admiração. porque tenho pra mim que ele fez de propósito. ninguém, mesmo sendo mendigo, se cobre inteiro nas pernas, fazendo como uma calça, direitinho, mas deixa “as partes" de fora sem que seja de propósito. mas talvez eu ache isso só porque tenho essa visão romântica... as pessoas na rua riam dele. a galera da padaria. o cara da banca de jornal. a velhinha, as crianças. eu devia ter brigado com todo mundo. devia ter mandado todo mundo tomar no cu. me arrependo de não ter feito isso por ele. mas a real é que ele devia estar cagando. ele não precisa de ninguém pra defender ele, a própria maneira dele existir já é uma defesa. fico pensando onde ele deve dormir. isso ia ser um problema pra mim, se eu fosse mendiga. porque eu sou mulher, e ficar de noite sozinha na rua não é legal... fora o frio do inverno...

Isso me lembra a mendiga pra quem a minha avó tentou dar um cobertorzinho que ela amava. minha bisavó que tinha feito pra ela. a senhora ficava na entrada da nossa rua e um dia minha mãe parou o carro um pouco antes da entrada e a minha avó saltou e foi entregar o cobertorzinho. a mulher pegou o cobertor, jogou longe e saiu correndo atrás da minha avó, berrando que não precisava de nada dela não. minha avó ficou arrasada, chorou durante uma semana – por causa da mendiga e por causa do cobertorzinho que ela tanto amava.

Porque é meio triste mesmo. mas ao mesmo tempo é meio bonito. não tem muito tempo, vi um outro mendigo – esse não é meu velho conhecido – na esquina da minha casa. era um fim de tarde de outono, a luz já estava caindo e fazia um feixe entre os galhos da árvore. o sol iluminava a poça de água da chuva do dia anterior embaixo da amendoeira. e o mendigo tomava banho na poça. era uma poça bem pequenininha, então, na verdade, ele estava abaixado, de cócoras, e com as mãos, fazia uma conchinha na água da poça e se lavava, como se não estivesse vestido, e como se nada estivesse acontecendo em volta dele. é isso que me encanta. porque aquela cena era de uma tristeza profunda, mas ao mesmo tempo era linda. não sei explicar por quê. talvez o problema seja meu. nem sei se alguém mais além de mim reparou no banho do rapaz. e, se reparou, espero que também tenha achado bonito. porque se eu sou realmente a única a achar uma coisa dessas bonita, é porque tem alguma coisa errada comigo. e isso é meio passo pra ficar muito muito muito maluca...

Texto: Maíra Fernandes de Melo

Imagem: Marcos Sêmola, www.s4photo.co.uk


Texto: Maíra Fernandes de Melo
Imagem: Marcos Sêmola

10 comentários:

  1. Adorei o texto e a imagem é certeira. Veio inspiração porque o texto fala de tudo. Seria um surto em minha família se eu decidisse me tornar mendiga. Seria muito maluco mesmo.

    Adorei.

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  2. Gostei da imagem. Comecei a ler o texto, mas voltei pra imagem e não saí mais de lá.

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  3. Harmonização perfeita entre texto e imagem! Parabéns!

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  4. Imagem ótima e texto profundamente humanista!
    Parabéns!

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  5. Agora sim, li o texto. Pelo buraco na imagem, a realidade das palavras é brutal.

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  6. Eu gosto muito das coisas que a Maíra escreve. :D E a imagem ficou ótima (pegou o mendigo, a folha de papel em branco e o "recorte da realidade" de forma literal)!

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  7. Que bom que gostaram....foi um texto desafiador mas logo me veio a idéia do furo na folha de papel, depois foi caminhar por Ipanema ate encontrar o mendigo que tinha idealizado.....alias, o achei no Jardim de Ala.
    e você, Maira, gostou?

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  8. Sempre me identifico com textos que falam do medo da morte. Talvez não se identifique só quem se engana... e o texto segue por uma linha inesperada, bem legal. E, realmente, acho que me filio ao grupo que não vê beleza na tal cena. Vejo uma desumanização que me entristece, mas sei lá, poucas opiniões ou sentimentos meus não estão sujeitos a variações. A foto me passou uma ideia de voyaerismo, e tem tudo a ver com o texto, que trata de um certo voyaerismo sobre essas pessoas que são vistas e tratadas como uma sub-casta bem sub-sub-sub e esse distanciamento acaba gerando curiosidade e a curiosidade é a mãe do voyearismo. Bacana. E Sêmola, se tivesse ido ao bairro vizinho, aquele dos edifícios máster, teria encontrado o desvalido mais rapidamente. ..rsrs...

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  9. adorei a dupla trabalhar com os mendigos. e o final do txt da maíra é muito belo...

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