sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Tomada de um Império

Todo dia.
Todos os dias.
Sempre.
O tempo todo.
A cada instante.
A cada segundo.
A cada piscar de olhos.
A cada batida do coração.
Nunca.



Tive um sonho.
Eu estou em minha cama. Sou acordado por um outro eu. Ele diz que devo o acompanhar. Nós chegamos na sala de casa e minha mãe me diz que está cansada. Ela se deita no chão da sala e começa a fazer abdominais. Então, meu outro eu pula em cima de sua barriga, fazendo com que ela exploda e que voe gordura e carne pela sala.

Nesse momento meu pai chega e diz que é hora de almoçar. Ele e meu outro eu catam os restos de minha mãe. Meu pai coloca os restos numa panela e os cozinha. Eu lhe pergunto: "Mas nós vamos comer a carne de mamãe?", e ele responde: "Sim, porque nós a amamos". Nos sentamos à mesa e comemos a carne de minha mãe.

Meu pai se vira então para meu outro eu e diz que o ama. O outro eu se levanta e pula pela janela da sala. Meu pai diz que está muito orgulhoso de mim, por eu ter pulado. Ele levanta e caminha até o seu quarto. Deita em seu berço, que é bem pequeno pra ele. Ele diz que é indefeso e que precisa que cuidem dele.

Logo depois disso, vejo que ele se urinou. Interfono para o porteiro e digo que ele precisa vir limpar meu pai. O porteiro logo aparece, e com ele, vários repórteres de jornal. Eles tiram muitas fotos enquanto o porteiro limpa meu pai, e me dizem que aquela é uma cena muito bela. Eu lhes digo que estou muito feliz deles terem vindo. Eles ficam um tanto irritados com meu comentário, e dizem que fui grosso e mal educado, e que não estão acostumados a serem tratados dessa maneira.

Eles todos se retiram de nossa casa. Meu pai sai de seu berço e diz que está na hora dele trabalhar. Então ele pega uma marreta e começa a quebrar a parede de seu quarto, enquanto grita palavrões.

Resolvo sair para passear. Quando abro a porta, vejo que há alguém tomando conta da porta. Ele diz que não posso sair até que os trabalhos estejam terminados. Me viro e vejo que meu pai está nu, gritando, e pedindo que eu o mate. Ele me entrega a marreta e acerto sua cabeça com toda a força. O seu cérebro fica exposto. Enquanto ele ainda respira, pego um pouco de seu cérebro e lhe dou em sua boca. Ele diz que fui um bom filho, que está orgulhoso de mim. Depois que ele pára de respirar, o coloco em um saco negro e o jogo no lixo do prédio. O homem que tomava conta de minha porta me deixa passar.

Saio na rua. A rua está vazia. Ao longe, vejo uma passeata se aproximando. Eles gritam que querem fazer sexo. Eu me aproximo deles e digo que então façam. Uma bela menina diz que eles não podem, pois não têm mais órgãos sexuais. Lhe digo que isso é um absurdo, e ela me diz para olhar dentro de minha calça. Quando olho tomo um susto, pois percebo que não tenho mais o meu pênis, nem meus testículos.

Ela diz que os órgãos sexuais estão sendo confiscados pelo governo, e que, a partir de agora, para fazer sexo devemos pagar uma taxa mensal. Pagando essa taxa, recebemos um órgão sexual de nossa escolha. Após um mês, se não pagamos outra vez, ficamos sem sexo novamente. Fico muito indignado com aquilo e resolvo me juntar à passeata.

Caminhamos até o castelo onde mora o ditador que nos governa. Gritamos que nós temos o direito de nascença de ter um sexo, que não precisamos pagar por isso.

Meu pai aparece na sacada do castelo, com sua roupa negra de ditador.

Ele diz que não precisa de minha opinião, e que está pensando em confiscar nosso direito de pensar também. Para pensar, teremos que pagar um taxa. Caso não paguemos, teremos pensamentos escolhidos por ele implantados em nossa mente.

A multidão olha enfurecida pra mim, e diz que irá me assassinar se não fizer algo. Eu subo pelas paredes do castelo. Quando chego na sacada, luto com meu pai.

Ele se deixa vencer.

Tiro suas roupas de ditador e as visto em meu corpo.

O pego em meu colo e o coloco em seu pequeno berço, próximo à sacada.

Ele me diz:

—Agora está tudo bem, agora você sabe como me sinto.



Texto: Rafael Sperling
Vídeo: Paulo Resende

4 comentários:

  1. Texto forte. Não deixa de ser verdade-ficção. Muitos andam fazendo passeatas por este motivo. Mas é sempre um movimento silencioso.

    E o vídeo... sem comentários.
    Só digo que adorei.

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  2. FABULOSO! O texto tem uma coisa de brincar com a psicanálise freudiana, onde tudo é sonho e símbolo. É tudo muito absurdo, dantesco, e justamente por isso, perto do real algumas vezes, cheio de significados! =D E o vídeo ficou bacanérrimo, um desbunde! ;D

    Simbiose total na obra conjunta, gostei mesmo! XD

    Abraços,

    Igor

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  3. Me amarro no estilo do Sperling. Me amarrei na leitura humorística e na montagem feita pelo Paulo. Ótimo post.

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