terça-feira, 9 de agosto de 2011

Gêiseres e batatas doces

Provavelmente era a chuva. Não propriamente a chuva, mas o tempo. Não propriamente o tempo, mas a persistência daquele tempo já há três dias somada aos grãos de areia que jurava sentir a arranhar-lhe a garganta. Garganta sensível de merda! O trabalho também devia ter a ver. Provavelmente sim. Como não se sentir melancólica com três dias chuvosos e frios, dor de garganta e um trabalho que lhe desagradava. E ainda aquela batata doce a lhe encarar.

As batatas doces são feias. Bem, feias no limite do que se pode chamar de feio algo que vem da natureza. Além de não serem gostosas. E são difíceis de desenhar. Muitas reentrâncias, sombras a serem feitas, relevos a serem captados. Tinha que agendar aquele prazo. Art. 475-J, do Código de Processo Civil. O prazo estava correndo. A batata doce a encará-la. O gaveteiro estava à sua direita. Era só abrir a última gaveta de cima para baixo. Por que a última de cima para baixo? Sempre pensava nesta seqüência: a afirmativa e depois o questionamento. E depois o pensamento de que sempre pensava assim, e depois a pergunta: por que não a primeira de baixo para cima? Sempre teve uma predileção inconsciente pelo último. Na sua casa, a gaveta que guardava a escova de cabelo era a última de baixo para cima. Afe! O referencial mudava para indicar o principal como o último. O foco era posto como algo distante. E faltava agendar o último prazo. Malditos prazos. Maldito dia em que não terminou a prova de inglês da UFRJ. Tivera-o feito talvez hoje fosse jornalista. Seria uma boa coisa? Bem, pelo menos advogada tem emprego. Abriu a última gaveta de cima para baixo. Pegou o crayon. Alguém veria? Ela ouviria o chefe saindo da sala. Apenas eles ainda estavam na empresa. Só faltava um prazo para agendar, um mísero prazo. Só agendar e ir para casa. Não tomaria muito tempo. Pegou um papel na impressora e passou a dar contentamento à batata doce. As batatas doces amam ser desenhadas. Ora, que honra serem objeto de arte, de contemplação. Os seres humanos, os donos do mundo, a curvarem-se a elas batatas doces. Cheias de reentrâncias e cracas. Parecem pele de baleia corcunda. Curvem-se. Curvem-se à feiúra bela das batatas doces, senhores donos do mundo! Desenhem-nos! Desenhem as rainhas batatas doces!


O chefe abriu a porta. Está saindo. O último prazo. Pasta 4752. Processo 2009.008.0666-6. Ai! Mais pó vermelho. Processos e processos do pó vermelho de São João de Meriti. Deve ter sido uma cena interessante. São João de Meriti, de uma ora para outra, repleto de gêiseres. E os caras ainda pedem dano moral. Faça-me o favor. Deve ter sido a coisa mais interessante que ocorreu na vida deles. Imagino um desses caras que entrou com ação contando a história da vida dele: “nasci, fiz colégio até quarta série primária, virei pintor de parede e agora estou aqui conversando com a senhora. Ah, e um dia o bueiro perto da minha casa virou um gêiser.” Se bem que o infeliz certamente nunca ouviu a palavra gêiser. Deve achar que é alemão. Se bobear confunde com Kaiser. Um fodido. Quando está a fim de gastar dinheiro deve beber Itaipava. Um bando de fodido querendo ganhar mil reais por causa do pó vermelho e uma mulher com cinco anos de faculdade e doze de escola para dizer que não, que eles não têm direito a mil reais de danos morais por causa do pó vermelho. Ninguém merece fazer cinco anos de faculdade para ficar cuidando de trezentos processos iguais referentes a um pó vermelho que vazou como gêiser do esgoto de São João de Meriti. E ficar desenhando batata doce escondida do chefe. Será que em casa desenharia batata doce? Existem coisas que só dão prazer quando se está no trabalho. É que trabalhar é tão ruim, mas tão ruim, que coisas a princípio chatas e entediantes quando feitas no trabalho ganham contornos - ou talvez máscaras - interessantíssimos. O ser humano é comparativo. É sim. Já viu aquele e-mail da ilusão de ótica por causa do efeito comparativo? Prazo agendado. Chefe foi embora. Sem mais trabalho por hoje. Batata doce, você perdeu a graça. Você não é rainha de porra nenhuma. Volte para o seu buraco e continue empesteando as coisas com esse seu cheiro de natureza morta.



Texto: Renato Amado
Imagem: Pilar Domingo

2 comentários:

  1. Maria Emilia Algebaile10 de agosto de 2011 17:30

    O estilo do Renato é inconfundível, gosto muito! E a obra da Pilar dialoga muito bem com o texto. Bacana! Parabéns!

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