sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Irene e a multidão

Segui Irene no meio da multidão. Ela usava um lenço azul amarrado no pescoço e um vestido cinza de mangas compridas, bem de acordo com aquele dia nublado, meio indefinido, como ela própria sempre foi. Vi Irene no momento em que ela amarrava os cabelos castanhos num rabo de cavalo displicente. E sem ponderar meus horários, meus prazos, meu dia, decidi segui-la para qualquer lugar que fosse. Como se ela pudesse definir meu destino novamente, como definiu há alguns meses, quando decidiu que era hora de nos separarmos. Logo ela que sempre foi incerta, nublada, indecisa, determinou com uma veemência arrebatadora que seria melhor seguirmos nossos caminhos separados.

Talvez em razão disso, quando vi Irene no meio da multidão do centro da cidade, decidi segui-la sem que ela soubesse. Em desobediência à sua determinação, quis fazer o mesmo caminho que ela, rendido, na verdade, a mais uma decisão de Irene.

Segui Irene entre dezenas de pessoas sérias, algumas poucas risonhas, outras apaixonadas, tristes, apressadas, atrapalhadas, esquecidas. Entre o assalariado que calculava o quanto ainda tinha de dinheiro no final do mês e a advogada que comprava livros na hora do almoço. Segui Irene entre o homem que procurava um presente para a namorada e a estudante que corria atrasada para seu estágio. Segui Irene entre homens e mulheres recém-separados, entre namorados, amantes, viúvos. Segui Irene entre dezenas de pessoas decididas, divertidas, revoltadas, resistentes, sobreviventes, delicadas, impetuosas, rudes, refinadas, tímidas, resignadas. Entre homens e mulheres que não conseguiam esquecer algo relevante. Entre homens e mulheres que transitavam pela multidão das mais diferentes formas. Entre mulheres que confidenciavam um segredo, entre homens que partilhavam uma sensação desconcertante.

Segui Irene no meio de um mosaico de humanidade.

E nesse momento, ela não me pareceu mais indefinida. Andava resoluta, sem titubear nas direções. Parou em frente a uma livraria durante cerca de trinta segundos, olhou o relógio e percebeu que não poderia entrar. Seguiu adiante, desviando das pessoas distraídas que andavam pra frente olhando pra trás, talvez como em suas próprias vidas. Talvez como eu mesmo, ali, perseguindo a Irene que um dia estava andando ao meu lado, guiada pelas minhas vontades.

Segui Irene pensando se ainda dava risadas, como Caetano queria na música, se ainda se comovia com livros e filmes, se ainda hesitava em decidir pelo teatro ou cinema, se ainda chorava quando falava de pessoas que já morreram. Segui Irene lembrando dos nossos passeios em cidades estrangeiras, dos seus medos indecifráveis, de sua atração intensa pelo que é humano, incluindo medos, equívocos e sonhos. Segui Irene percebendo que homens e mulheres a olhavam com admiração, panfletadores ofereciam anúncios que ela recebia com indulgência, crianças sorriam, acenando um adeus agradável e inocente, um adeus que mais parecia um “até breve, volte logo”.

Volte logo, eu pensei. E nessa hora, decidi parar de seguir Irene. Deixei que ela se misturasse novamente ao mosaico de pessoas onde eu mesmo estava inserido, como se pudesse dividir o mesmo espaço com ela. Deixei que ela desaparecesse no meio das histórias misteriosas das pessoas que nos circulavam. Deixei que ela seguisse sozinha seu caminho, como ela tanto desejava. Deixei que ela fosse embora, acenando um adeus infantil que parecia dizer:

Até breve, volte logo.



Texto: Danielle Costa
Imagem, inspirada no texto: Ana Muniz

3 comentários:

  1. Nossa, coisa bonita, txt e imagem, q se completam e se imíscuem. A perseguição amorosa é um verdadeiro "motto" literário. Uma metáfora da vida enquanto tal, pelo menos como ela é para os q desejam. e numa época de stalkers, quem nunca perseguiu ninguém q atire a primeira pedra. ou pare de perseguir os stalkers ou outros apaixonados...

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  2. Adorei o conto e adorei o mosaico de humanidade. Lembrei daquela palestra do Ignácio de Loyola Brandão na FLIP em que ele fala sobre os nomes dos personagens e coisa e tal e tal e coisa. Adoro esse nome Irene em conto e sempre penso numa personagem que ganhará esse nome, personagem ainda sem história, mas cá está a Irene que eu pensava, ainda sem forma, quase arquetípica, minha Irene ganhou chão nesse conto formidável e nessa ilustração tão suave.
    E agora o comentário do comentário: nosso amigo Guilherme está adorando essa história de stalker, palavra que, aliás, aprendi com ele, naquele conto do clube da leitura memorável!

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