sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Fundo do Copo

O fundo do copo
refrata o chão,
o teto, o sofá.
Depois de algumas doses,
refrata minha vida
em sete mil cores
vertidas na parede nua.
Sentidos desconexos,
não sei onde me encontrar.
Em que cor,
em que parte,
em que outro olhar
reflete-se a desordem
da minha vida desfocada?

Torno a encher o copo
de conhaque e sonhos,
de vinho e desejos,
de wisky on the rocks.

Viagem gratuita
pelo pequeno cômodo
no espaço de cada gole.

Cada vez que vai à boca,
o fundo do copo,
numa performance irritante,
mostra novos traços,
com outros caminhos
que não consigo enxergar claramente.

E eu me bebo
toda esparramada no líquido
que abastece de graça
o filme já gasto da minha vida
tão líquida,
tão volátil,
tão impregnada
desse bafo alcoólico.
O fundo do copo
foge das mãos
e jaz agora
em sete mil pedaços
no tapete colorido
do incômodo apartamento
como as sete mil cores
do meu sangue
que decora as paredes
azuis, vedes, amarelas,
brancas luminosas, fatais.

Um passo descuidado
lança o corpo ao chão.
Um vento fraco
carrega o sopro de vida
que teimava ainda
em se misturar
ao cheiro de álcool e sangue
em plena sala de jantar.



Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Maria Matina

6 comentários:

  1. Caramba, quanta sensibilidade junta! O texto está incrível, tem uma poesia tão profunda quanto fluida e a arte [belíssima] acompanha, dando a ideia de que a mulher bebe a si mesma!

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  2. Amei nossa parceria MAria Emilia!! Arrasmos!!

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  3. Maria Emilia Algebaile6 de agosto de 2011 14:40

    Ficou muito bom, Matina! Vamos repetir a parceria!

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  4. mas uma batalhadora poética na área. benvinda Maria Emilia q nos apresenta uma vida esparramada "em cheiro de álcool e sangue/em plena sala de jantar"... e Matina arrasou com uma linda e sugestiva imagem, das melhores... tudo muito feminino, parabéns às duas!

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