terça-feira, 16 de agosto de 2011

O pão nosso de cada dia

O pão nosso de cada dia
está nas ruas esburacadas
onde se escangalha todo o carro,
está nas calçadas quebradas,
onde se tropeça atabalhoadamente;
no sacolejo ensimesmado do metrô
onde se pensa a morte da bezerra,
na carência fodida de todo amor
quando retorna a falta da mãe,
na ausência completa de uma boa foda,
quando se fica inteiramente na mão,
no infrene e estonteante giro da roda
que te deixa muito confuso, ou sem fuso;
na batalha irremissível da labuta
que a mais-valia prostitui,
no sorriso constrangedor da puta
que te chupa enquanto pede carinho;
está no suor do esforço do parto
quando se indaga - pra que mais gente, meu Deus?
ou no prenúncio iminente do infarto
quando pouco restará a ser feito;
está na voz endemoniada do Pastor
enquanto induz o descarrego,
inscreve-se na hipocrisia do louvor
que o padre impele ao seu sermão;
está na mentira escarrada da publicidade
que promove o que não interessa,
está em se perder por inteiro na cidade
quando se retarda a volta pra casa;
na impossibilidade de encontrar o norte,
pois não há bússola que dê jeito
para o que se lamenta como falta de sorte
mas é apenas vazio de desejo.

oh Vida, pão da Morte!



Texto: Guilherme Preger
Imagem: Diego Kern Lopes

4 comentários:

  1. Muito obrigado pelo texto Guilherme. Quando li veio direto na cabeça o som de uma banda que gosto muito, Mad Season (bem novinha por sinal). Daí foi só juntar os pontinhos.
    E Gilson, velho, adorei esse novo layout. Pô, e com essa barra de compartilhamento tudo fica mais fácil. Abração pra todos.

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  2. O texto tem vários pontos altos - a ausência da foda, o parto de mais um - e, principalmente, o final. Pra ficar perfeito - daí é opinião minha e doxa sempre vale menos do que qualquer outra coisa e pode ser amassada e jogada no lixo ou então plastificada acima da cabeça do médico - só faltaria ser escrito todo seguidão, em layout de prosa. Tá muito bom e casou benzão com a imagem! Morte completa a vida tanto quanto a imagem e o texto se complementam. Parabéns aos dois!

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  3. Achei muito bom! XD É bem ácido, e uma puta crítica a esse mundo virado... Mas discordo da Maíra quanto à forma. Gostei da escolha pela poesia. Acho a cadência poética desse texto rápida, quase prosaica mesmo. Dá a ideia de uma oração, no que tange à forma, só que em vez de pedir a graça, inverte tudo e vomita a desgraça! =D

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