sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Humano


Quando a terra começou a cobrir completamente os dois caixões, o coveiro olhou em meus olhos, tocou meu ombro e disse: “Seja humano”.
A história é a seguinte: após 25 anos trabalhando numa empresa, meu pai, recém-recuperado de seu vício em álcool e cocaína, foi mandado embora. Seu chefe descobriu alguns de seus erros da época de viciado e o humilhou na frente dos colegas.
Um homem empurrado da fina linha em que se equilibrava, meu pai passou num bar, bebeu aproximadamente uma garrafa inteira de vodka, cheirou algo como 2 gramas de cocaína e voltou para casa.
Em casa, bateu em minha mãe com uma violência incrível. Exausto, apagou a seu lado.
Pela manhã, meu pai despertou ao lado do corpo já sem vida de minha mãe. Ele não suportou a culpa e se atirou de um prédio público, pouco antes da chegada dos funcionários.
Estou sozinho e preciso ser humano.
Ao me sentir fraco, sou humano; erros são humanos, mais ainda o é a fraqueza. Ser humano é não ser forte.
Por outro lado, não ser humano é converter a fraqueza seja em força sobre-humana, seja em violência descontrolada e, portanto, desumana. Ser humano, de certa forma, é viver numa barraca montada entre as trincheiras de duas forças. Ser humano é ser forte o suficiente para não ceder a elas.
A vingança é um mal, um mal humano. A humilhação gratuita feita contra meu pai o fez ficar fraco para lutar contra si próprio e, assim, o fez mais humano.
Quando é humano acabar com outro ser humano? Nunca?
E se for para libertá-lo de um sofrimento inexorável?
E se for pelo bem de outros seres humanos?
Quem está certo: minha mãe e sua humana compreensão do sofrimento de meu pai? Meu pai e seu ódio humano contra uma vida injusta?
Ser humano é ser bom ou mau?
Consumido por esta dúvida dentro da barraca armada entre as trincheiras de minhas forças, peguei o revólver na gaveta da minha mãe e me encaminhei para o local onde meu pai trabalhava. Àquela altura todos já sabiam do ocorrido.
Entrei na sala do chefe. Ele me deu um abraço. Ele me pediu perdão. Ele foi humano.
Saquei o revólver da calça e acertei uma bala na têmpora.
De minha própria cabeça.
E só então descobri que o que havia de humano em mim não era o bem nem o mal.
Era a dor.

Imagem: Marcelo Damm
Texto: Saulo Aride

4 comentários:

  1. Belíssimo texto pela reflexão provocada!
    Belíssima imagem pela dor que explode.
    Parabéns aos dois!

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