terça-feira, 13 de setembro de 2011

Invasão



Eu estava quieta, em silêncio. Sentia frio, mas usava o vestido amarelo com flores azuis que você me presenteou no meu aniversário. Tudo parecia estranhamente complementar, pacífico, calmo, imperturbável, quando surgiu aquela mulher de vestido vermelho, sentou na nossa frente e começou a falar. Seu vestido era elegante, de um vermelho intenso, parecia sangue que escorria por seu pescoço fino, comprido e delicado. Lembro que fiquei admirando as partes do seu corpo que estavam expostas, seus braços, pernas e, pensando em como um pescoço tão fino podia ser tão bonito quanto o dela.”


Está ventando muito e você quer permanecer quieta, como se pudesse, de fato, ficar impassível ao que nos rodeia, como se pudesse ser eternamente aquilo que você um dia foi. Por que você nunca percebeu que as coisas estavam mudando?”


Esqueci de dizer que ela também usava um batom muito vermelho. O que, não sei por que, naquela hora, me lembrou a Sylvia Plath e seu cabelo-década-de-50. De qualquer forma, aquele vermelho todo contrastava com sua pele branca, com seus olhos duvidosos e seus gestos fugidios. Ela parecia prestes a revelar um segredo, a qualquer momento, e isso me angustiava. Ela parecia querer falar algo e isso me afligia.”


Você sempre gostou de segredos. Quantos de nossos amigos te contavam seus segredos porque sabiam que estariam bem guardados. Todo mundo quer compartilhar alguma coisa. Todos querem dividir. Até mesmo você. Ainda que, no fundo, seu desejo seja que tudo permaneça igual.”


Era estranho que esse segredo viesse dela, que era tão arisca que se vestia de vermelho para se impor. Isso não era contraditório mas, de fato, me angustiava. Como aquela mulher de pescoço tão fino e comprido, sorriso largo, mas ao mesmo tempo, triste, conseguia manter algum segredo de nós dois? Por que, embora falasse tanto, não conseguia dizer o que realmente importava para nós três? Ao mesmo que se impunha, ela era frágil, como se fosse se despedaçar. Ela me assusta porque é uma contingência.”


Não sei por que você insiste em falar sobre 'nós três'.”


Porque já não sou mais a mesma desde que ela apareceu. Eu sei que as coisas mudaram antes mesmo de você se dar conta disso.”


E se eu disser que conheço o segredo dela?”


Eu diria que conheço também. Ou suponho que sim.”


E se eu disser que não há segredo algum?”


Não importa. Continuam existindo coisas que desconhecemos.”


E se eu disser que ela não existe?”


Eu perguntaria de onde inventei esses lábios vermelhos e essa existência que me assusta. Se disser isso, você me desampara.”


Mas tudo que existe agora é esse barulho de janelas balançando.”


Ela baixou a cabeça e olhou para suas mãos. Os dedos finos entrecruzados, formando um emaranhado de apertos e sensações. Depois levantou, foi até o quarto, vestiu um vestido vermelho delicado, quase cor de sangue. Voltou pra sala, sorriu um sorriso largo, emoldurado por lábios vermelhos, tristes como os de Sylvia Plath. Depois abriu as janelas e deixou o vento entrar.



Imagem: Pilar Domingo

Texto: Danielle Costa

2 comentários: