terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lindo Pendão


Singular é essa gente,
Que é no plural pegajosa.
A baforada é quente e fétida
– E o caráter moldado
Na xepa da feira é fluido.

O sucesso é sazonal
Nesse país colorido.
Nos campos e nos bueiros,
Breve e limítrofe orgulho.

Tal doente terminal
Em cuidados paliativos,
Que a nossa ironia brega
Não deixa nunca morrer.

– Como um zumbi mesmo,
Mas não aquele dos Palmares.

É mãe que pariu a fórceps,
Comeu a placenta ao alho,
Pegou o filho entrouxado
E saiu pelo mundo afora.

Em bizarro paradoxo,
Uma sociedade de párias
Em grades, paredes, muros.

– E ilusórios malabares
Deitados em pleno dejeto
Dessa pátria-mãe dentuça,
Que abocanha o contracheque
No malote da esquina.

As aves que aqui gorjeiam
Engolem café com esparrela.
Santo é o sapo cururu,
Que toma no rabo na brenha.

Especialista em sorrisos,
Em gargalhadas profundas,
Logo em seguida caladas
Por fel e espancamento.

Aceita mudo o achincalhe,
Que rebate e que espelha,
Sem saber quem vem primeiro,
Qual anterior agoniza.

– É o ovo ou a galinha
Da agroindústria de agosto?

Nessa vã parafernália,
A sirigaita rebola
Qual liquidificador,
Mas a casa é sem reboco.

Pelos rumores do Ibope,
Nessa terra imaculada
Só falta uma isquemia
Pra implodir o império.

– Mas controlando a inflação,
Que a gente não é lacaio!

Antípodas de si mesmos,
Em antiquadas sesmarias,
Apadrinham uns aos outros
Em sina e antropofagia.

A intimidade da raça e
A identidade idílica
São nítida simbiose
– Ou será parasitismo?

É com pesar que anunciam
Que anteontem no plenário
Mais uma sessão adiam

– E pra isso não há antídoto:
Todos nós somos senhores
Das nossas próprias senzalas.

Mas entre ladainha e lágrima,
Rabada e lantejoula,
Fevereiro sempre existe
Pra reforçar a festa.

E depois sinal-da-cruz
Que é pra espantar a besta
Na garantia dos termos.

– Vontade de enfiar porrada,
Mas é tudo tão bucólico...

Se eu pedir licença-prêmio,
Vou ser leve ou leviana?
Eu sou labor ou sou luto?
Quem é livre e quem é lixo?

No lombo, carrego a lorota,
No bolso, o bilhete da Loto.
Na sola, o resquício da lama,
Na tela, o sonho da fama.

Na maloca, mangaba e maminha
Pro churrasco de “dia de sábado”.
Na TV, contraceno com sangue
– Só seis dias pro campeonato.

Que quase mórbida alegria,
Que satisfação aleijada
Desse povo alcoolizado
Nesse verso analfabeto?

– Mas como diz o Agualusa,
E talvez nem cause espanto,
O pessimismo é realmente
Um luxo dos povos felizes.

Fotografia: Rudy Trindade
Poema: Maíra Fernandes de Melo

4 comentários:

  1. CLAP, CLAP, CLAP! O poema resume esse país e dois versos resumem o poema:

    "– Vontade de enfiar porrada,
    Mas é tudo tão bucólico..."

    Excelente.

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  2. é ótimo quando uma obra nos surpreende aqui no CLP, mas há outras q fazem mais do q isto e q transcendem inteiramente a intenção do projeto. sempre senti falta de obras q traduzissem o Estado das coisas, q não tivessem medo de mexer com as feridas do tempo de agora. e tinha q ser o cronista visual Rudy Trindade e a politizada poeta Maíra para nos trazer um presente deste. No caso a imagem do Rudy é um "passe" (já q Rudy é um exímio fotógrafo tbm do mundo da bola) açucarado para a Maíra fazer um golaço poético. Ela q já nos tinha traçado com exuberância verbal o mal-estar de sua geração no poema dedicado a Ginsberg, agora ela nos traça com incrível acuidade o "sucesso sazonal" e a "vontade de enfiar a porrada" q está no mais íntimo desejo de toda uma época. O final do poema é simplesmente fantástico! Parabéns à coragem da dupla!

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  3. Eu não imaginei o que poderia "sair" de texto sobre minha foto pois fugia realmente do projeto, ou não?
    Maíra, obrigado, texto maravilhoso...

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