terça-feira, 20 de setembro de 2011

Olhos nítidos



Ele mudou os planos nas vésperas de nossa separação. Eu não esperava nada. Nada mais me causava anseios. Estava certa a partida e me acostumei a aceitar rupturas. Elas existem para que possamos reconstruir. Nossa casa ficaria para trás. Assim como os móveis e as memórias. Quisera eu ter tido a chance de diluir uma a uma como se faz ao lavar roupas e retirar manchas. Coloca-se o tecido de molho, sabão e alvejante, porque, às vezes, é preciso não enxergar cores. Mas ele conseguiu me surpreender antes de partir. Era tarde da noite. Barulho na rua não havia. O carro irrompeu o silêncio ao entrar em nosso jardim. Ele havia chegado. Ouvi seus passos. Eram relutantes. Eram passos pensantes. Eu os ouvi subir as escadas da frente, tocar o carpete, caminhar pelo corredor onde jaz uma estante de madeira envelhecida. Eu ouvi seus passos tornarem-se mais exatos, bem colocados, pesados em extrema decisão e, ao abrir a porta de nosso quarto, vi por inteiro seu corpo esguio, suas pernas minhas, seu rosto meu (pálido a portar vertigem), sua roupa azulada como se fosse o céu de uma tarde que não mais cairia. É esta a imagem que guardo do homem que, por razão incompreensível, estilhaçou-me com um tiro e de mim tirou a vida e agora busca explicações para o seu crime de matar a única que trazia brilho ao equívoco que ele costumava chamar de mulher minha. Azulado espectro em porta retrato me torno. Manchete vulgar em jornal da esquina. Morta de sentido eu vago a relembrar o azul de seus olhos nítidos ao erguer-me o corpo, beijar-me a boca e camuflar-me submarina no fundo das águas de nossa piscina que por tantas vezes banhou nossas festas, encontros entre amigos e domingos de celebrar descansos. A morte nunca me foi irracional. Mas os motivos que o levaram a me jogar neste precipício jamais serão esclarecidos. Nunca será dita a verdade que empunhava suas mãos e o levou a causar meu brutal extermínio.

Texto: Letícia Palmeira
Imagem: Diego Kern Lopes

4 comentários:

  1. Parabéns a todos aqueles que já participaram de alguma forma deste coletivo, que acaba de ser contemplado no edital do Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF), um dos mais importantes centros culturais do Rio de Janeiro, onde fará uma exposição no ano que vem.

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  2. Putz muito bom texto, de um ritmo sutilmente penetrante e aflitivo. e o Diego é o mestre das imagens q nos deixam completamente vidrados...

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