sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Quem brincava de princesa arrancou a fantasia



Arrebatadora. Conquistadora. Gostosa. Esses são alguns dos atributos que tenho e que escuto por aí. Não vou dizer que não adoro ser desejada. Me pergunto sobre o desejo: o que é isso? Algum calor inexplicável ou informação cultural? Desconfio que ele é inerente ao ser humano, mas a forma que toma é determinada pela cultura. E foi nela que mirei para me moldar. Bunda grande aqui no país tropical, seios fartos, mas sem exagero, lábios carnudos, nariz fino. Mantive os olhos castanhos, porque achei que faria um contraste interessante com os cabelos cor de fogo. O cabelo ruivo com toques loiros se sobrepõe ao puro loiro, porque assim lembra uma chama. Com um blush no rosto e batom vermelho, então, é incêndio. Não há homem que não olhe, que não queira se esbaldar nos meus seios fartos. E muitas vezes eu deixo. Não vou dizer que sou difícil. Difícil é conseguir um relacionamento sério. Talvez seja por isso que me deito com tantos, numa busca desesperada por um parceiro duradouro. Nessa empreitada, me moldei a mulher perfeita. E não apenas esteticamente. Quer conversar sobre cultura popular? vi todos os episódios de House, Friends, Lost, de todas as últimas novelas das nove. Quer falar de economia, esporte, cultura: devoro o jornal diariamente. Viagem? já li diversos guias turísticos. É gringo? ok, meus inglês, francês e italiano são fluentes, além de arranhar (tenho unhas grandes) um espanhol. É apaixonado pelas letras? li de Homero a João Paulo Cuenca, mas devo confessar, e talvez esse seja meu ponto fraco com os intelectuais, que não gosto de Guimarães Rosa nem de Julio Cortázar. Os clássicos renascentistas ou o dadaísmo de Duchamps tampouco me são estranhos. Assim como também não o são o último blockbuster americano ou os maiores clássicos da nouvelle vague. Enfim, sobre o que te agrada eu sou capaz de conversar. O que te agrada, eu sou capaz de lhe dar. Falo quando percebo que a pessoa quer ouvir, e me calo frente a catarses. Sei ser ativa e passiva, nessa esfera ou em qualquer outra. Posso ser uma amazona guerreira, ou uma mamãe comportada. Apesar de tudo, não alcanço um relacionamento, talvez pelo meu grande defeito: não sei mentir. Pior: não sei omitir. Ao menos não por muito tempo. 
 
Ano passado, após passar por diversos exames psicológicos e psiquiátricos, finalmente consegui realizar pelo SUS a operação para mudança de sexo. Mas será que mudei mesmo? Tinha um professor no Colégio Naval que dizia: a cada indisciplina do aluno eu coloco uma taxinha no papel gravado com seu nome, que fica preso ao mural. Se ele se comportar bem, eu tiro a taxinha, mas o furo fica. No caso, infelizmente, é o oposto de um furo. Retirado anatomicamente, ele segue em meu DNA e, ao que parece, em algum lugar da minha alma ou do corpo que não consigo notar, mas que eles conseguem. Sou uma mulher, tão gostosa e inteligente quanto as melhores, mas eles não aceitam isso. A necessidade de provar a virilidade, o medo da homossexualidade e o preconceito sobressaem à tudo, inclusive ao amor. O amor não move montanhas, o amor não move quase nada, não move nem um carro, isso devemos à gasolina. A paixão sim, mas ela é efêmera, e mesmo ela sucumbe ao preconceito, às verdades e axiomas contraídos desde a infância e fortalecidos na adolescência. Brinquei de princesa, acostumei na fantasia e a transformei na minha pele, no meu espírito, mas ainda assim, basta eu dizer a verdade que a pele, aos olhos deles, se torna novamente fantasia. Mas não é, eu sei que não, não é fantasia, sou eu, é minha essência. Não vesti uma fantasia, antes, a extirpei no dia da cirurgia. Agora meu corpo reflete minha alma, mesmo que eles, presos a ultrapassados valores, ignorem.  Contudo, meu atual amor não me escapa. Ele é lindo, musculoso, e ainda por cima adora Foucault. Por que estragar tudo lhe contando acerca de uma fantasia que me caía mal e que foi arrancada pelo bisturi? Ele já me olhou bem no fundo de meus olhos marrons-melancólios. Não há nada que ainda precise ser dito.

Imagem: Maria Matina
Texto: Renato Amado

3 comentários:

  1. Adorei meninos, a imagem,o texto e o casamento deles.

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  2. Renato e Matina,

    A parceria está BRILHANTE! A imagem da Matina é linda (tem uma melancolia, uma expressão incrível). E o Renato capta a essência da expressão da personagem e faz um texto muito primoroso, muito bonito mesmo!

    Quanto à personagem propriamente dita, é pena que não goste de Cortázar, tampouco de Guimarães Rosa. Ela perdeu a chance que tínhamos de poder construir uma história juntos... haushuahsuahsuhausa =PP

    Abraços! o/

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