terça-feira, 4 de outubro de 2011

18


Aos 18 anos, a vida vem em nódoas e brilhos. Todos os rapazes são franzinos, todo mundo é um pouco o outro também, apesar desse anseio torto de querer construir uma identidade para si. Ser diferente, sim; esquisito, nunca. Aos 18 se abrem as portas (e as pernas) do sexo sem freio (e sem prepúcio). Quem tem fimose e nunca operou, sabe que tem que ser agora ou nunca, as meninas estão aí. Todo mundo carrega um walkman, discman, mp3, iPad, não importa a época. Vai estar tocando aquela música que se vende como undergound, mas é mainstream à beça. Ou vai estar tocando aquela banda indie que quase-ninguém conhece, exceto todos os seus amigos. Todos os rapazes carregam consigo suas mochilas, que são sempre tão úteis quanto uma bússola desorientada na lua: uns papéis velhos, camisinhas e uns chicletes de anteontem.

Aos 16, todo garoto quer ter uma banda. Aos 20, começam a pesar nos ombros dos homens a responsabilidade de ter um trabalho ou de se dedicar à faculdade, ou de fazer alguma coisa, qualquer coisa. Mas aos 18, as bandas do garotos já foram destruídas pelas amizades que nunca são pra sempre, pelas namoradas roubadas, pelos segredos contados, por esse aprender a conviver que dói, mas também por esse tédio, por esse saco-cheio de perceber que o mundo vai além das bandas (e das bundas). Mas não são ainda os homens de 20, que acabam de deixar a fase teen e estão sempre desejosos de alguma coisa a mais, fase na qual começam a vir os projetos e os esboços da vida futura, os pés se fincam no chão ainda que de forma não tão dura, mas se fincam, pisam esse estalar de folhas secas que faz barulho.

Mas aos 18, os corações que já desistiram do insistente e ainda não insistem no que há-de-vir, ficam nessa espécie de plasma volátil, de gosma no espaço-tempo em que tudo é fluido, frágil. É um breve interstício essa penumbra etária, que é composta de nódoa e brilho: tanto brilho do lado de fora, tanta nódoa do lado de dentro.

E nessa queda desatinada pela qual cada um de nós passa se a morte não lhe toma de assalto tão cedo, no meio de toda essa nódoa e todo esse brilho, depois dos altos platôs da infância descompromissada e pouco antes do chão-duro, o que sobra são as portas.

As mãozinhas flébeis e inseguras dos rapazes de 18 anos titubeiam. Mas é curtíssimo o tempo para decidir se, defronte às portas, abrem-nas. E se abrem-nas, se adentram-nas. E se adentrarem-nas, se lá haverão de permancer.

Imagem: Marcos Sêmola
Texto: Igor Dias

5 comentários:

  1. Igor, obrigado por embrulhar a minha fotografia com poesia e lembranças, lembranças dos meus 20 que não voltam mais. :-)
    Abr,
    MS

    ResponderExcluir
  2. bom pra caraio, emocionante até. "gosma no espaço-tempo" é fantástico. e q final! engrandeceu a imagem do Semola!

    ResponderExcluir
  3. Excelente resultado dessa parceria! Texto e imagem belos e impactantes (mostrando a realidade do tempo frágil e fluido). Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Eu adorei trabalhar em cima dessa fotografia e curti muito a parceria dessa obra! Obrigado, Semola! :)

    ResponderExcluir