sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Enquanto adormece o sonhador



E dorme o dia, cansado e entrecortado por fios de alta tensão. Com ele, no quarto ao lado, esquizofrênica pensa a humanidade. Esbelta figura rural metropolitana. Lança chamas de vontades e ardente em tantas vivas memórias que reclamam seus vícios. Oram suas meninas e ela não consegue dormir. Humanidade metafísica descontente acontece suja nas mãos do cobrador de ônibus, na boca banguela do homem de rua, nas rachaduras do tempo, dos minutos, nos exilados, esquecidos e poéticos dias de ontem. Abre os olhos, sem sono, soberba, observa os ares e exaspera em incerteza e ferve nas curvas das cidades, nas esquinas, no véu da noiva, no enfadonho escritor que perde palavras e no filme sem graça, sem audiência, sem bilheteria e quer sonhar a humanidade. Dentro da voz do povo, no olhar de quem suporta a arma e no medo de quem morrerá. Nos meninos doentes, em desequilibradas filas de gente e nas mãos do carteiro ela fala. A humanidade fala e não dorme. Assombra e, ainda viva, não abandona o homem que a declara identidade. A crua humanidade que fere a gente permanece de olhos abertos. Não dorme que há consciência pesada. Ama que há inflamação de vontades. Aniquila como a mãe que protege em exagero e evoca o demônio de dentro do múltiplo humano e fala forçando a máquina corpo que necessita existência. A humanidade não dorme. Quem dorme é o homem. E acontece o tempo enquanto as roupas se acariciam sedentas em nossos varais.

Imagem: Ana Muniz
Texto: Letícia Palmeira

2 comentários:

  1. Mandaram muito bem!!!! Já sou fã de Ana Muniz (belas ilustrações, belíssimas ilustrações!!!!), agora tô virando fã de Letícia Palmeira também, com seus textos cheios de vida e ritmo, textos musicais, imagéticos e urgentes. Texto e imagem deram as mãos e agora vou dormir tranqüila, enquanto vai insone a humanidade mais do que inteira.

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