terça-feira, 11 de outubro de 2011

O abandono de Elisa

Elisa senta-se e desata a dizer coisas absurdas como se triviais fossem, assim, com a naturalidade absoluta de quem não sente culpa de nada. Às vezes parece se impor sem qualquer delicadeza, seu corpo intenso oprimindo minha necessidade de existência. Eu preciso apenas existir sem que ela me defina. Quando percebe que me incomoda, sorri e me afronta dizendo que sentir culpa é tentar se santificar, afirmativa com a qual me identifico de imediato. Você quer ser santo, ela me diz, os olhos arregalados e fixados em mim, vidrados pela possibilidade do meu iminente aborrecimento.

Tive um dia febril, eu digo, numa tentativa de torná-la mais dócil. Era quase uma súplica, o que, na verdade, era o que ela queria ouvir. Ela responde que todos os seus dias são febris e tenta me provocar. Ela tem curvas no corpo como na alma, eu penso, tentando traçar uma linha entre nossas sensações. Visualizo uma linha oblíqua o tempo inteiro. Elisa ri quando eu menos espero, chora em manhãs ensolaradas, desaparece por dias e me diz, sem qualquer sutileza, que vai me deixar em pouco tempo.


Mas antes mesmo que eu me aterrorize com sua ausência, ela volta, senta-se à minha janela e desata a contar os sonhos desconexos das noites anteriores. Às vezes sussurra, como se não quisesse ouvir sua própria voz. Sei que tem medos e sei que tem medo de mim. Desconfio, quando ela faz seus prognósticos, que não quer me dar escolhas e, em razão disso, me diz o que farei. Quando eu digo que ela não é razoável, ela me responde que não entendo sua lógica. Quando eu me esforço para entendê-la, ela sente tédio e diz vai embora. Sinto que ela poderia ver o mundo acabar, continuar impassível, e desabar em choro apenas no dia seguinte, como se ainda pudesse existir entre os destroços. É quando ela percebe que não há mérito algum em se impor sobre os restos da humanidade. Chega a ficar triste, mas é devastação o que ela deseja causar e seu prazer é desaparecer deixando seus rastros no caminho.

Percebi isso no dia em que ela me disse que não conseguiria viver sem mim.

Agora sei que ela não virá amanhã.

Imagem: Maria Matina

Texto: Danielle Costa

5 comentários:

  1. Gostei do texto e da imagem, ficou boa a união.

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  2. "seu prazer é desaparecer deixando seus rastros no caminho" este incrível não-objeto.

    dei um zooom e a imagem não ficou grande... quero ver ela maior.

    excelenteS trabalho colegas! abração

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  3. Diego tem razão: a imagem merece sofrer um alargamento... ou este seria um sofrimento demasiado? afinal, como viu bem o diego, elisa é um não-ser, ser um não-objeto é o q lhe dá prazer. talvez tenha q se deixar a imagem assim mesma, como naquelas miniaturas q precisamos nos aproximar com lentes... e sempre nos textos da Dani estes paradoxos totalmente irresolvidos, suspensos, oblíquos: "eu preciso apenas existir sem que ela me defina"... os contos da dani são indefiníveis...

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  4. Idem, a imagem tem que crescer. Também cliquei nela e continuou pequena. Esse post merece, a imagem merece.

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