terça-feira, 25 de outubro de 2011

Parede



Eu era um dos mais dedicados, no começo. Desde os meus treze anos pesquisava sobre aquela parede; sabia de cor os cálculos comprovando que ela poderia cair a qualquer momento. Sabia, também, da mensagem de nosso fundador, Jonas, o primeiro homem que, disposto a fazer a diferença, começou a ONG Contenção Eterna.

Funciona assim: nós nos revezamos na sustentação da parede. Cada turno possui duzentos homens, que sustentam com a força de seus corpos a imensa estrutura por exatamente 6 horas. Ao todo, são quatro turnos por dia. A ONG nunca para.

Todos temos muito orgulho do nosso trabalho. Somos uma espécie de heróis da comunidade. Não é raro termos crianças ao redor de nós, torcendo por nosso trabalho hercúleo de impedir que aquela parede esmague nossas cabeças.

Certo dia, após segurar por quase quatro horas a parede com o mesmo braço, percebi sua dormência. Em meu braço sem resposta não havia qualquer força contrária à queda da parede. Preocupado, troquei logo de braço, com medo de que meu deslize provocasse uma instabilidade ainda maior na estrutura apocalíptica diante de mim. Comentei com meu colega, que respondeu: “Não se preocupe. Meu braço já ficou dormente diversas vezes. E a parede não caiu”.

Voltei para casa com a frase ecoando na memória.

E a parede não caiu.

Peguei nas gavetas os cálculos de nosso fundador, Jonas, que demonstram que se um homem fraquejasse, a estrutura começaria a se inclinar imediatamente. Refiz toda a matemática e me preocupei com meu braço dormente.

E a parede não caiu.

Por cinco dias, andava para o trabalho e de volta para casa pensando na minha falha. Chegava horas antes do início do meu turno para averiguar se não havia nada na estrutura que tivesse se modificado após o dia de meu erro.

Não havia nada.

E a parede não caiu.

Após uma semana sem conseguir dormir, fiz um erro ainda maior. Colocando a vida de toda a comunidade em risco, abandonei meu posto no meio do meu turno.

Ninguém pareceu se importar.

E a parede não caiu.

Cada vez mais atordoado, andei por toda a extensão da supostamente infinita parede e vi que, em determinado ponto, onde não havia mais ninguém a segurá-la, ela se acabava. Existia um outro lado da parede.

Já sem medo de qualquer desgraça, decidi observar o outro lado.
Havia uma série de homens como nós da ONG empurrando a parede de forma semelhante. Perguntei ao primeiro deles o que estava acontecendo. Ele me disse que a parede podia desabar sobre eles a qualquer momento; por isso, um nobre homem decidiu formar aquele grupo de bravos heróis encarregados da sustentação da estrutura.

E a parede não caiu.

Voltei rapidamente para meu lado da parede e pedi o desligamento imediato da ONG. Comecei a contar a todos o que vi do outro lado da parede, mas ninguém pareceu se importar. Não era possível ver nem mesmo uma fagulha de curiosidade, sequer de dúvida. Todos aqueles heróis eram indiferentes à verdade que eu anunciava.

No mesmo dia havia outro trabalhador em meu lugar, segurando a estrutura.

E a parede não caiu.

Meus dias começaram a ficar cada vez mais dolorosos. O que seria da minha vida sem o risco da parede desabar? Da noite para o dia não era mais herói, não era mais um membro, não era mais amigo, não era mais ninguém.

Decidi, conformado, retomar meu posto na ONG. Os cálculos estavam certos, havia uma força desconhecida que empurrava a parede contra nossas cabeças. A força era real e perceptível, ainda que fosse uma força criada por nós mesmos, exercida por outro grupo de heróis exatamente igual ao nosso.

Retomei meu antigo posto com dedicação. Meu colega me recebeu de volta com um sorriso e disse: “Você foi lá daquele lado também, não? Vai por mim: não vale a pena. Esqueça o que descobriu e acredite que esta parede vai cair a qualquer momento”.

E a parede não caiu.

Imagem: Diego Kern Lopes
Texto: Saulo Aride

5 comentários:

  1. Nossa, muita boa esta obra da dupla, a imagem simultaneamente figurativa e abstrata, realista e conceitual de DKL e a parábola moral, mas realista do Saulo: as verdadeiras paredes estão nas nossas cabeças...

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  2. Excelente Saulo! Estes desdobramentos da criação são sempre uma surpresa muito agradável de se ter!Quanta coisa contida que a gente nem se dá conta quando tá no meio do trabalho de parto. Abração cara!

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  3. Um bonito desenho do Diego. Um puta texto do Saulo, a melhor forma de arte. Tenho quase uma certeza de que em algum momento aleatório vou lembrar desse texto. Parece parábolas clássicas da cultura popular, como o rei nu e etc.

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  4. Diego, a imagem foi o retrato perfeito de como venho me sentindo em tantas coisas... o conto saiu numa enxurrada. Obrigado pela imagem!

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