sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Usem Camisinha - carta aberta à casta mais infeliz da humanidade


As agonias para quem tem alma de vagabundo, mas vagabundo bom, vagabundo como Kerouac, Bukowski, Pixinguinha, são enormes. Sobreviver de arte e viver na boemia, morrendo aos cinquenta de cirrose num quarto alugado no Méier ou se submeter a um emprego escravizador para morrer de infarto e angústia aos cinquenta num três quartos em Ipanema? Sim, em geral só há essas duas opções, pois a solução já não está ao alcance. Ela deveria ter sido encontrada quando ainda estávamos, digo, estava com o DNA sendo formado, o perispírito sendo introjetado no feto. Falaria para para, para tudo! Vai me fazer artista é o caralho! Me faz um bom homem médio aí, um cidadão que nunca se perguntará sobre sua função no mundo e que só seguirá o fluxo natural (imposto) da vida, seja de burguês ou de fodido. Ignorance is bliss, Neo. Não seja marginal, não seja artista. Seja ordinário, seja feliz.

Bem, mas a verdade é que não se escolhe, ou se nasce vagabundo - ou chame de artista, ou de artista-vagabundo, no fundo é tudo a mesma porra - ou se nasce ordinário. E aí amigo, se você teve a infelicidade de pertencer ao primeiro grupo, está fodido. Se chegar aos quarenta sem nunca ter feito um tratamento psiquiátrico daqueles brabões mesmo, à base de Prozac, Rivotril e daí pra pior está bem pra cacete. Se chegar aos trinta sem nunca ter deitado no divã, então... ah, aí você está é fodido e mal pago, amigo. É, porque não é viável que um artista - e aqui me refiro àquela coisa de DNA, alma, sei lá que porra, enfim, falo da essência do cara, não do caminho dele, pois tem uns que nunca colocam pra fora e deixam a coisa toda se revirando dentro deles e lhes causando úlceras – chegue sequer aos 25 sem nunca ter precisado de terapia. Então, se você não fez é porque sonegou a questão e está mais fodido ainda, só não está pior do que aqueles que arrumam terapeuta que só agrava as coisas. O fato é que o ser humano que nasce pra ser artista, cumprindo ou não a sina, foi tocado pelo pior karma e sua existência está necessariamente fadada à infelicidade, a menos que ele caia nas graças da mídia, aí ele vai ganhar um monte de dinheiro fazendo sua arte (e talvez torre tudo em cocaína e outras inas e suma da mídia e fique de novo pobre, só que dessa vez também viciado), fato raro entre os membros da classe, normalmente composta por pobres fracassados ou infelizes trancados em escritórios de engenharia, advocacia ou qualquer porra dessas, que dão vazão à alma somente nas parcas horas vagas, sendo, portanto, aprisionados desgraçados. Não sei o que é pior, morrer infartado em Ipanema ou de cirrose no Méier. O fato é que, em qualquer dos dois casos, nada mais do que uma existência sofrida - com pausas em breves e insustentáveis, porém intensos momentos de embriagamento pela vida depois que o sol se põe – é o que se pode esperar. E ainda tem uns que resolvem casar e fazer filho(s) pelo caminho para foder a porra toda de vez. Se tenho um conselho para dar a esses infelizes inatos para que a merda toda não fique ainda pior, ei-lo: usem camisinha.

Imagem: Fernanda Franco
Texto: Renato Amado

2 comentários:

  1. Renato, adorei seu texto! E ficou ótimo com a imagem da Fernanda, apesar de achar que o sorriso do rapaz merecia um texto mais otimista! =PP

    Abraços,

    Igor

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