terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ao delírio dos sentidos

À tarde, amena e transitória, vi teu corpo. E não tardei a querer o que nunca por vida havia visto. Tendo eu enxergado a ti, de minha branda voracidade de gente tímida, de um beijo de língua, de um beijo francês no qual te assumo minha parte, meu prazer, meu sudário pálido que desejo a cobrir-me em claras noites, tanto quis. E, ao volume do rádio, uma canção tardia dizendo estradas, eu queria um drink e uma fisgada de tua língua. E ainda quis mais e, por subverter o sentido das coisas, minha vontade por ti coagida, insana e verdadeira, flagelada como os imprudentes poetas marginais, deixei-me amargar em teus desejos e não movi opostas declarações espontâneas. Menti como aprendi a fingir depois de um drink e o corpo, trapézio a ti devoto, úmido se rendendo aos teus punhos, quando então abri a boca e libertei a palavra que seria de mim o maior pecado e de ti faria ser consagrado. Uma cereja entre nossas línguas e a noite não tardaria. Mas o medo em suplicar o que meus olhos tanto queriam ter, fez-me partir. Abandonei o desejo por medo ou terá meu corpo realmente sentido a existência de teu corpo pleno em pungentes e imensos movimentos? Ainda a duvidar penso em ti e trago o gosto na boca em delírio e dolorosa dormência de todos os sentidos.



Texto: Letícia Palmeira
Imagem: Pilar Domingos

3 comentários:

  1. Sou fã! Adorei o trabalho da dupla!

    ResponderExcluir
  2. legal, e agora penso como são raros aqui no CLP os txts de desfrutes sensuais, de fruição dos sentidos e carnosos, como é este trabalho da dupla, muito bem feito e encaixado...

    ResponderExcluir