terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Sol é o Sol

O Sol é o Sol
E a garça está em cima das nuvens

Tem água caindo em minha cabeça
E robôs batucando no asfalto

A casa ficou balançando de um lado pro outro
E as argolas olharam para dentro das ameixas

—Olhem isso. Isso é poesia. Vejam. Compreendam. Abracem a poesia, com força. Esmaguem-na. Usem toda a sua força. Destruam a poesia. DESTRUAM!

E o exército de sonâmbulos saiu marchando. Gritavam e esperneavam. Derrubavam as velhinhas, chutavam a cabeça das crianças. E destruíam toda poesia que encontravam.

Quando cheguei em casa, havia uma revolução acontecendo. Os fiéis cortavam seus pulsos com navalhas negras, e comiam biscoitos de água e sal. A água ainda caía na minha cabeça, mas o sal dava um sabor especial de ameixa.

Quando o Sol que não era o Sol se pôs, peguei os restos de poesia destruída e fiz uma colagem. Um dos fiéis enfiou a colagem em sua jugular, com auxílio de uma argola.

Depois de algumas centenas de segundos, os robôs invadiram minha casa. Batucavam nos móveis e na cabeça de minha avó. Então, em um protesto sigiloso, ela comeu a ameixa. Foi até a janela e deu o caroço à garça, que havia descido da estratosfera.

Com a destruição do caroço, os robôs pararam de batucar, e os fieis de se cortar. A casa parou de balançar. Isso fez com que os sonâmbulos, que rodeavam minha casa, acordassem e sofressem ataques cardíacos, pelo susto de estarem nus, cobertos de carne de crianças, de velhas e pedaços de poesia.

Então a garça disse que tudo era uma questão de ponto de vista, que o Sol podia, ou não, ser o Sol. Dependia da hora do dia. Ou da noite. Então todos aplaudiram a garça e se deitaram para dormir.

Sonharam que eram caixas de papelão e acordaram com dor de ouvido. Minha avó passou pasta de amendoim em seus ouvidos, o que fez com que urrassem de dor. Gritaram desesperadamente, muito alto, durante horas. Suas gargantas começaram a sangrar e a se despedaçar.

Depois que todos morreram, liguei para a transportadora, que prontamente apareceu em minha porta. Dei um ovo de páscoa ao funcionário, que sorriu para sua imagem no espelho. Ele disse que estava menstruado e isso era motivo de festa. Então, se jogou no meio dos mortos e disse que também estava morto, que queria ser colocado dentro de uma caixa de papelão.

Disse que ele devia levar os mortos embora, mas ele começou a chorar e socar os mortos, o que fez a garça ficar com cólicas. A garça disse que tudo era uma questão de ponto de vista, estar vivo ou morto. Então o funcionário olhou para o espelho de um outro ângulo. E sorriu para a sua imagem no espelho. Ele disse que a garça não estava mais com cólicas e que ele já havia sido uma garça antes de ser funcionário de transportadora.

—Ah, claro, isso faz todo o sentido — eu disse.

O funcionário arrancou a colagem de poesias destruídas da jugular do fiel morto.
Após recitar versos de poesia destruída, arrancou suas orelhas e as comeu.

—São de cera. Não esqueça das argolas.
—Ok.

Dei um passo em direção à pilha de mortos e peguei as argolas. Estavam encharcadas de sangue coagulado. Então às grampeei no lugar de suas orelhas. Ele disse que era hora de partir. Me entregou os resto de poesia que haviam sobrado e saiu. Pela janela do banheiro. A queda o matou.

Disse para a garça que estava feliz com os acontecimentos.
Ela me abraçou emocionada e disse que era uma questão de ponto de vista.
A água parou de cair em minha cabeça.



Texto: Rafael Sperling
Imagem, inspirada no texto: Marcelo Damm

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