sábado, 5 de novembro de 2011

Pare.



Nó na garganta, lágrimas querendo rolar, a cara trancada e nada especificamente que explique a insatisfação, embora um conjunto que talvez justifique, a vida não cabe dentro de você. Quer demais, pouco consegue, move-se muito para obter este pouco que, se pensar bem, não é tão pouco assim, e tantas atividades e energia dispersa não cabem dentro de si, mas segue na busca, não desiste, há de encontrar algo, sabe-se lá o que. Só quer parar, parar um pouco, chega, tantas indagações, questões, etc, a preocupação com o circunflexo do que lá atrás que não saiu e desse que também e também desse, e a preocupação com a forma do texto, e com o emprego, e com a namorada, e com seu projeto cultural, seu projeto editorial, seu projeto acadêmico, seu projeto autoral, seu projeto de desenvolvimento de jogo, de desenvolvimento de site, de viagens, de meditação, de escola de arte, de oficinas, de cursos a fazer, de conhecimentos a adquirir e tudo caminhando a passos de cágado (internamente) ou simplesmente parado, e tudo lhe consumindo de forma atroz, tudo a lhe sugar, a lhe drenar a energia, a lhe enlouquecer e ceifar não digo a felicidade, pois essa já não existia, mas a alegria e sua cabeça em viagens espaciais pela ânsia de se dar conta de diferentes possibilidades. Não dá mais para seguir dentro das mesmas lógicas, mesmo assim prossegue por não ver outra opção, o turismo espacial ainda não é uma realidade viável para não milionários e você queria se não ser milionário ao menos ter o suficiente para viver de renda, o fato é que segue, quer suprir a frustração com projetos em andamento com novos projetos, quer provar para si mesmo que é empreendedor, mas é incapaz de desfalcar uma parcela realmente significante de seu patrimônio para arriscar um tiro certeiro. No fundo é um conservador, e mais do que projetos e sonhos importa seu emprego estável que diz detestar e o dinheiro nosso de cada dia amém, ao menos nega para si casar, cioso de seu espaço que preenche cada vez mais com filmes e livros de ficção e não absorve nada de útil ou realmente interessante, ok, algumas coisas interessantes e úteis numa conversa para mostrar que é ao menos um proto-intelectual, quando na verdade não passa de um merda perdido, que se sente mais merda do que os outros, que na verdade também são uns merdas e isso o consola, ao menos é um merda com algum dinheiro, mas mesmo assim nem tanto, nem tanto mesmo, o fato é que é um infeliz e foda-se se os outros são também, se é que o são, não está na cabeça deles para saber. Você foi sendo sugado e sugado e sugado pela sua mente. E será que seus projetos são tão dolorosos assim ou será que simplesmente não aguenta a pressão ou será que aprendeu a se auto-infligir sofrimento desde sua criação, afinal, fazer-se vítima é uma forma de ouvir consolos e elogios, logo você, cheio de projetos e com um bom emprego se fazendo de vítima. Ora, cá entre nós, de vítima não tem nada seu moleque mimado, que mora num bairro nobre sem ter sequer que pagar aluguel. Deve gostar de se fazer sofredor para se sentir mais artista, coisa que, aliás, nunca provou ser. Se diz escritor, escreve uns trecos mais ou menos, se auto-publica e ainda acha isso o máximo, embora saiba que qualquer babaca com alguns tostões furados consiga se auto-publicar. “Ah, mas já escrevi orelha”: grande merda. De livro de impressão sob-demanda, de um autor desconhecido para uma editora estranha, ora bolas, acorda para a vida, você é um moleque mimado que gosta de bancar o sofredor e que ainda não se provou artista e que vai ter que correr atrás para isso. E fica aí, com preocupações de forma e o caralho e deve ficar mesmo se quer se provar alguma coisa, só não sei se vai ser feliz enquanto quiser provar algo. Por que simplesmente não dá asas completas à experimentação e foda-se, deixa rolar, aproveita que desde a independência financeira não tem um editor controlando o conteúdo (ou tem?)? E, aliás, até quando terá que parar todos seus afazeres para escrever um texto e conseguir manter sua produtividade? Porque é foda, você se mantém produtivo cinco dias, depois cai num estado pré-depressivo e letárgico e não consegue produzir porra nenhuma por dois, três dias, grande merda de empreendedor que você é. Produz artisticamente justamente nessas horas, não é? Mas além de se provar artista não quer se provar empreendedor? E ser um acadêmico? E ser isso e aquilo e aquilo outro, e ainda se sente mal quando não assiste a um jogo do Flamengo porque está descumprindo sua obrigação de torcedor de carteirinha, porque não pode assumir que não é tão flamenguista assim e talvez efetivamente seja altamente flamenguista, foda-se, esse ópio não tem a menor importância, você perde mais de uma hora por dia no globoesporte.com só porque está fugindo de alguma coisa, não é um real desejo de estar lá, é apenas uma necessidade de não estar em nenhum dos outros lugares possíveis, afinal, fim de semana raramente acessa o tal site, porque fim de semana esquece com a bênção de sei lá o quê, graças a Deus, esquece suas obrigações, então não sente necessidade de fugir para lugar nenhum, pois então você é você, é na vagabundagem que você existe, mesmo que esteja sempre buscando ser produtivo. Mas que porra de empreendedor e quiçá futuro acadêmico é esse que só existe na vagabundagem e que tem a ópera do malandro como musical favorito? Que porra é essa, afinal? É um vagabundo que gosta de dinheiro e arte, então quer fazer dinheiro da arte, para vagabundear melhor, só que arte e dinheiro não rimam amigo, então se fode aí e não tem nada mais que eu possa falar. Sei que queria que eu terminasse com alguma mensagem positiva para largar a sua pré-depressão da semana, mas está difícil, meu chapa. Talvez eu recomende que seja menos mental e, sobretudo, menos perfeccionista. Deixa o perfeccionismo para quem cuida da produção nos seus negócios e larga essa merda de produção. Foda-se que erros virão com outro lá, também vinham quando só você cuidava disso, nunca serás perfeito, a cobrança do mundo é foda, é tudo muito foda, mas talvez seja melhor fazer como os outros, deixar rolar mais frouxo e se desesperar nas últimas 24 horas, ao menos reduz-se o tempo de estresse. E se faltar energia nesses momentos pontuais tome um RedBull. Take it easy, man. É, sei que não ecoa, sua expressão me diz isso, sua laringe mais travada. Está engraçada sua garganta, ela relaxa e contrai diversas vezes enquanto você vai me ouvindo. Alonga ela, joga a cabeça para trás. Melhorou? Pouco? Porra, então não sei, eu poderia falar para se matar, mas acho isso uma atitude um caralhão de vezes covarde, tem um zilhão de pessoas felizes, por que também não consegue ser? Não jogue tudo nas costas de fatores e escolhas de mais de dez anos atrás, cara pálida. Elas podem atrapalhar, não determinar, nada determina, meu caro. Sei que gostaria que eu voltasse a te contar histórias de humor absurdo e desenvolvesse aquela narrativa que comentei sobre o feto de areia, só que vamos deixar para a próxima, né? Por enquanto fiquemos assim: densos, tensos, psicológicos. Shalom.


Texto: Renato Amado



Fotografia, inspirada no texto: Marcos Sêmola

3 comentários:

  1. Boa leitura, Sêmola.

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  2. Um texto muito barra-pesada contrastando com uma imagem supersensível (mas dentro do espírito)! Adoro essas dicotomias que o CLP proporciona! =D

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