terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Amigo Oculto


Odeio amigo oculto. Sempre odiei. Acho simplesmente estúpida a ideia de troca de presentes com pessoas estranhas. Seria muito melhor comprar diretamente o seu próprio presente, sem riscos de desagradar - ou pior, de ser desagradado. Principalmente quando os outros participantes são só colegas de trabalho. Porque amigo oculto é tipicamente uma brincadeira de ambientes de trabalho. Não sei se as pessoas que têm família também brincam disso em suas celebrações.

Pra este Natal, comprei de amigo oculto um Blu-ray que estava sendo lançado naquela semana, de um filme clássico. A pessoa pra quem dei o presente ficou muito feliz, ou pelo menos fingiu com muita eficiência. Eu, em compensação, ganhei uma pequena escultura.

Odeio escultura. Sempre odiei. Nunca vi graça na reprodução tridimensional e monocromática da realidade; pra mim ela busca um olhar autoral num universo tão inóspito de atuação que se torna algo que não valeria a pena ser feito. A escultura quando se despe do caráter artístico e se pretende decorativa, então, é um desastre.

E foi uma dessas que eu ganhei. Ganhei de Natal a escultura de um homem nu. Por “homem”, entenda-se o conceito fisicamente limitado de “homem esculpível”: torso e parte das pernas, sem braços, sem cabeça, sem nada. Um pedaço de gente reproduzido num pedaço de pedra.

Acho que ganhei esta escultura por ser gay. As pessoas devem achar que homem é uma daquelas coisas de que não se pode gostar pouco. Quem gosta é automaticamente considerado fanático. Assim, as pessoas pensam que, se um homem decide se assumir gay, não é porque ele goste de homens, e sim porque ele é um pervertido sexual que só pensa em homens o tempo inteiro. Serve para mulheres também: quando uma mulher diz que gosta de homens, ela se torna, no mesmo instante, uma ninfomaníaca com um fraco por cafajestes.

E por conta disso, um homem como eu merece uma escultura de homem nu como presente de Natal.

Levei o trambolho para casa, muito a contragosto. Precisei voltar abraçado àquele volumoso embrulho no metrô, o que dificultou o trajeto e inspirou mais olhares tortos do que os que normalmente eu tento me desviar diariamente.

Chegando em casa, coloquei aquela bodega sobre a pia da área - lugar que achei menos vexatório para se colocar um pedaço de ser humano sem roupas feito numa pedra.

Naquela mesma noite, não consegui dormir e fui para a área, passar um tempo com meu amigo sem cabeça. Seu corpo era simplesmente perfeito, torneado, músculos na medida certa. Seria um homem interessante se tivesse cabeça e membros. Interessante demais. Um homem perfeito. A existência desse tipo de homem dificulta a vida de nós, homens medíocres. Minha admiração pelo meu novo amigo logo se tornou ódio.

No dia seguinte, acordei e fui tomar café-da-manhã na cozinha. O que um homem como aquele comeria para manter aquele corpo?

Não pus leite no meu café.

Substituí o pão com requeijão por um polenguinho.

Saí para trabalhar cheio de culpa, mesmo assim. Não aceitei nenhum dos convites para almoçar. Um homem perfeito não almoçaria, provavelmente; disso se ocupam os medíocres, os estúpidos, a corja de gente sem graça para a qual os deuses olham e gargalham.

Ao fim do dia fiquei levemente tonto; li num blog sobre anorexia que essa tontura era o preço da perfeição - e confesso que o achei até bem justo. Voltei no metrô suando bastante, mas cheguei em casa satisfeito. Rapidamente, dei uma passada na área e tirei minha camisa em frente à estátua. Se ela tivesse cabeça, ela teria visto como sou um concorrente perigoso.

Meu sono foi bem relaxante.

No dia seguinte, saí sem café. Nem polenguinho.

No trabalho, passei grande parte do tempo administrando a tontura, que gradativamente transformava os colegas em borrões e as vozes em músicas cada vez mais guturais. Certo de que estava no caminho da perfeição, me mantive firme.

Ao quarto dia depois do amigo oculto não acordei. Alguém no trabalho estranhou minha ausência e foi até minha casa. Fui internado com desidratação e anemia. Era o homem, usando seu cargo de semideus para sabotar minha evolução.

Odeio sabotagem. Sempre odiei.

Voltei para casa do hospital e decidi que, para vencer a batalha, eu precisaria usar minhas vantagens sobre a estátua: os braços.

Peguei-a rapidamente da pia e, antes que meu coração hesitasse, joguei o homem perfeito pela janela.

Era ele ou eu.

Imagem: Pilar Domingo
Texto: Saulo Aride

3 comentários:

  1. O conto é genial. Conseguiu transformar uma imagem extremamente difícil em um conto com cabeça, tronco e membros... (risos!)

    Sempre corro o risco de ser injusto, mas é das melhores produções que já vi por aqui.

    Abraços,

    Igor

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  2. Saulo, vc se superou! Adorei! E a foto da Pilar foi super instigadora!

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