terça-feira, 20 de dezembro de 2011

enquanto polly espera



polly quer um biscoito,
teddy também;
talvez ela precisasse de um pouco d’água,
teddy tem.

polly quer um biscoito,
teddy também;
talvez ela gostasse de um pouco de comida,
teddy também.

polly diz que suas costas estão doendo,
teddy concorda;
polly diz que está tão entediada quanto
teddy, que se corta,

a si mesmo, no vidro
do copo d’água nunca oferecido,

enquanto a sufoca
e a mata
de fome
do biscoito procurado
de sede
da água que se nega
de dor
do remédio inexistente
de tédio
do que não se compartilha

polly diz

o não-dito por polly
camisa xadrez de flanela
os anos 90 em Seattle
suicídio

enquanto teddy é poço
de amarga lucidez
desconstruída
pelas crises econômicas
pela moral
pelo excesso
de providência
nunca divina

enquanto teddy é o anti-cronópio
fama
absorto no próprio umbigo
e nos pés, de vez em quando

enquanto teddy é a reação
ao novo que se apresenta
gato de botas, sem botas
mula sem cabeça, com cabeça
polly,
incomensuravelmente enorme,
mas pequena,
do alto de sua gaiola,
com suas asas sujas que ninguém vai limpar,

pede ajuda
pede que a soltem
pede que a deixem dar um passeio

mas morre
um pouco a cada dia
enquanto o mundo
é teddy
quer teddy
compra teddy
vai morrendo
aos pouquinhos

finge que medita, que alcança o mais alto
nirvana

e polly, coitada,
caída nas graças desgraçadas de teddy
teddyo,

[e ora morta]

polly coitada,
polly diz,
polly diz, coitada

que só queria um biscoito.


Imagem: Marcelo Damm
Texto: Igor Dias

2 comentários:

  1. Sensacional post, txt e imagem! poesia rules no clp, parabéns à dupla!

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