terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Sinal

Menos sinal

Ao menos um sinal
ou nem isto.
Um incômodo que não
se sabe de onde veio,
prurido que se coça
e logo passa.
Uma nuvem que parecia
um elefante flutuante
e após lembra um flocos
informe de algodão.
Uma palavra há muito esquecida
retornando como chiclete
por entre os lábios.
Um amigo que não se vê há anos
e passa do outro lado da rua
e se finge não ver
e se apressa o passo.
Uma mão que agarra a outra
inadvertidamente,
o roçar entre corpos que
antes se evitavam.
A sorte de uma trepada
quando menos se esperava
e rompe a noite insaciavelmente.
Um ato falho, um tropeção,
uma cabeçada, um encontrão,
um atropelamento.
A estranha coincidência
entre a crise financeira mundial
e o fim de um relacionamento.
A infame vontade de rir
no meio de um funeral.
O indiscreto desejo
de mandar o mundo às favas
numa festa de casamento.
A súbita mudança do vento
quando o dia parecia tão claro.
Um terremoto distante,
uma revolução
a descoberta da cura de um vírus.
A insana insistência
para que se diga a verdade.
Um tom de telefone,
o toque da campainha,
a impressão de que bateram na porta.
Um não quando o que mais se queria
era dizer sim.
A queda na bicicleta
por uma mera distração,
a morte num desastre de automóvel
por um mínimo cochilo.
O rearranjo sincrônico de astros
numa longínqua constelação
e o nascimento prematuro
de uma criança.
Um menos sinal
ou sinal de menos,
sequer um motivo
qualquer explicação.

Em frente: só isto.



Poema: Guilherme Preger
Imagem: Maria Matina

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