sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quanto

Dei-lhe um cordão, um par de brincos redondos, um bilhete escrito à mão e um abraço tímido, ao cruzar a porta de nosso antigo apartamento. Na verdade, antigo para mim, expulso, e até então atual para Marta.

- Suas roupas ainda…
- Acho que não preciso delas, por um tempo.
- Vai se vestir com o quê?
- Dou um jeito. Não pretendo sair muito de casa.
- Já decidiu onde vai morar agora?
- Não te interessa.

O dinheiro havia fugido de minhas mãos e hoje se disfarçava em vasos e móveis e madeiras nobres e jóias e um laptop e uma tevê e… Quem precisa de dinheiro? Quem realmente se importa? Eu posso conseguir dinheiro facilmente, consigo me lembrar de pelo menos 15 babacas que me devem a mãe. Não se trata de dinheiro. Marta não conseguia parar de comprar inutilidades, e isso não pode ser visto como causa de uma separação, e sim como sintoma de que as coisas estão no caminho errado.
Eu ia passar uma noite num hotelzinho perto de casa, já conhecido. Ia sempre lá com as moças do escritório, e fiquei amigo do dono no dia em que saí do trabalho com a Lucinha a tiracolo. Ele me perguntou, “Quer que eu suba com uma cerveja?” e eu disse que não era homem de beber cerveja, e ele inesperadamente gostou disso. “Nem eu”.
Entrei no hotel com as malas e pedi uma garrafa de uísque antes de subir.

- Copo com gelo?
- Sei lá, com qualquer merda, desde que seja rápido.

Ele me entregou a chave e a garrafa num instante, e subi para o quarto. Da janela vi meu prédio, vi a luz do meu apartamento acesa, vi Marta chorando no sofá. Não me importo. Que se abrace com os vasos, agora. Eu odeio vasos.
No dia seguinte acordei com muita sede. Desci para o trabalho e comprei uma água sem gás.

- Ressaca?
- O que acha?
- Noite agitada ontem?
- Porra nenhuma.

Não lembro o significado dessa palavra, “agitada”. E daí? Não me faz falta. Só duas coisas me fazem falta: meu dinheiro e minha mulher. Puta merda. Será que ela dormiu? Tomara que doa, tomara que esteja com a cara enfurnada nas almofadas ridículas que eu paguei. As almofadas valeram a pena, pelo menos. Macias pra cacete. Nem sabia que vendiam almofadas desse jeito. Os vasos também eram valiosos, embora de mau gosto. O Jarbas foi lá em casa e disse que dava pra vender pelo dobro do preço. Marta comentou que era uma boa aprender a negociar antigüidades. Eu respondi que era uma boa ela calar a boca e parar de ter idéia estúpida. Ela me expulsou. Talvez eu tenha sido um pouco grosso.

Bato na porta.
- Lúcio?
- Oi, Marta.
- Você…
- Esquece?
- Sério?
- Porra.
- Tá.
- Posso entrar?
- Vendi todas aquelas coisas.
- Quanto?

Ela me ligou anteontem, disse que voltou pra casa dos pais. E daí? Ela não tem a mínima vocação pra vender nada. Pelo menos fiquei com a casa. E ela levou o cordão. Vendi os brincos. Por um preço decente, claro.



Texto: Saulo Aride
Imagem: Ana Muniz

2 comentários:

  1. Nossa, como são delicados os traços da ana muniz. ótima esta imagem do coração e a casa virada e desvirada. e o txt do saulo com estas questões q embora comuns, não são boas nem de pensar...

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