terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Recortes em cores

Há estes momentos que ele só consegue traduzir por meio de cores. Todos os dias acorda cedo e vai trabalhar às sete da manhã. Entrega lanches no centro da cidade e passa o dia conhecendo inúmeras vidas solitárias: advogados, estagiários, secretárias, funcionários públicos, arquitetos, vendedores, revendedores, alguns bem vestidos, poucos mal-humorados, outros infelizes, uns muitos simpáticos, outros apressados, todos compondo aquele imenso mosaico colorido de relações humanas, previsíveis ou não. Enquanto percorre as movimentadas ruas do centro, cria vidas e desenha, em seu imaginário, sorrisos pulsantes cor de rosa, mãos agitadas em vermelho, rostos apaixonados cor de laranja, longos cabelos cor de violeta palpitante.

Todos os dias se depara com ao menos uma pessoa triste. Uma vez por semana, geralmente às quintas-feiras, entrega um sanduíche de tomate seco com mussarela de búfala e um suco de uva natural para Gabriela, que lhe parecia a mais triste de todas as pessoas com quem se encontrava. Sua tristeza não se definia por completo, e por isso lhe sugeria algo ambíguo, quase duvidoso. Nesse dia, ela pagou-lhe com uma nota de dez reais e quatro moedas de cinquenta centavos, abriu um sorriso breve e perguntou-lhe delicadamente: “Me diga, você é tão feliz quanto parece?” Foi a primeira vez que a ouviu dizer algo diverso de “boa tarde” e “obrigada”. Sua voz era baixa, doce, como se desejasse desaguar as palavras a cada vez que falava. Seus olhos eram grandes amêndoas marrons que fiscalizavam tudo que a circundava. Suas mãos finas e as unhas vermelhas procuravam o tempo inteiro se impor no ambiente à sua volta. Ele respondeu um “talvez” condescendente e ficou pensando se Gabriela era realmente tão triste quanto lhe parecia.

Todos os dias se depara com ao menos uma pessoa muito feliz e a observa com firmeza, tentando distingui-la de Gabriela. Conheceu Luíza no dia em que ela pediu uma salada vegetariana e um suco de manga. Percebeu que seus gestos emitiam uma alegria extrema, quase inebriante e confusa, como se desejasse que o resto do mundo descobrisse aquela felicidade inteira. Soube depois que Luíza, há uns meses atrás, se chamava Fernando e estava infeliz tendo nascido homem. Concluiu que Luíza também era a pessoa mais corajosa que conhecia, e passou a pensar na relação entre bravura e felicidade.

Esses momentos, ele traduz no fim do dia, com espaço, sprays e cores. Pinta, então, o sorriso de Gabriela num vermelho intenso, completamente entregue à lembrança de suas mãos fugidias que recebiam o sanduíche de tomate seco. Desenha a coragem de Luíza em tons de cor de rosa. Dá formas às sensações cotidianas em traços azuis, roxos e cor de laranja. Transforma o tédio em roxo intenso, a melancolia em verde limão e a surpresa em azul marinho.

Um dia ele descobriu como traduzir o que percebia. E nesse dia, percebeu sua própria realidade, na miríade de cores com que já a desenhava.


Imagem: Marcos Sêmola

Texto: Danielle Costa

8 comentários:

  1. Q explosão de cores e q explosão de sensações entre a foto de Semola e o texto da dani. Cores e palavras, nuances de traços e sílabas, gente triste q brilha, gente brilhante q projeta a tristeza pra longe, imagem e linhas nos levando sabe-se lá pra onde. parabéns à dupla q se completou nesta obra q é um pequeno pedaço de extase...

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  2. Show, Danielle! Feliz por ter produzido o suporte do belo texto. Abr, MS

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  3. Muito bom o texto. De uma imagem difícil de se extrair algo tão delicado e cotidiano.

    Parabéns

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  4. Obrigada, pessoal. Foi maravilhoso me inspirar numa imagem tão bela e repleta de cores.

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  5. Último parágrafo fecha com chave de ouro. Belo o trabalho do Sêmola também.

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  6. Muito bom, uma pintura em forma de conto.

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