terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vai quê...

Foto: Rudy Trindade


Quando vem um diagnóstico e se está na minha idade não há ateísmo que resista. Enquanto os outros acendiam vela para os mortos, eu acendia para mim, um morto ainda vivente. Um dead man walking como chamam os que estão no corredor da morte. Encomendava minha própria alma. Queria fazer isso antes de dar o último suspiro, que pode ocorrer a qualquer momento. Quero fazer a travessia com luz. Luz que eu mesmo acendo com meu isqueiro, porque não acredito que haja alguém que possa me dar à luz, salvo minha mãe no fatídico 1o de janeiro de 1927. Ela disse que nunca foi tão bom perder os fogos da Praia Curva – evento pelo qual ela é estranhamente fascinada. Eu preferia que ela tivesse passado a virada à beira-mar e me atirado logo após o nascimento à sétima ondinha. Teria de qualquer forma experimentado o nascimento e a morte, como estou em vias de fazer num espaço de tempo muito maior, mas ao menos teria sido poupado da Consciência, essa torturadora que se instala em nós entre os dois mais definitivos eventos da existência. “Filho, tudo morre”. Então, para que as coisas nascem? Não adianta fazer a viagem se não terei memórias para carregar. Então, por mais absurda que a ideia seja, decidi acreditar no Cara mais popular do universo. A crença durou apenas um ano, até que ocorreu o evento mais definitivo da minha vida depois do meu nascimento e da minha morte: o nascimento do meu filho e seu falecimento logo após o parto junto com o de minha esposa, uma das pessoas mais devotas que já conheci. Mandei, então, Deus à merda e passei a adorar o Hedonismo.

Naquela época não havia ainda revolução sexual e muito menos casa de suingue, de modo que tive que me contentar com as putas da Rua Forteleza. Acreditei no Hedonismo igualmente por um ano, até que o segundo evento mais definitivo de minha vida ocorreu: tornei-me impotente.

Voltei a crer em Deus, julguei que era castigo por tê-lo blasfemado, passei a frequentar a missa primeiro aos domingos, depois três vezes por semana, até que o terceiro evento mais definitivo da minha vida ocorreu: o padre me cantou e meu pau subiu.

Fiquei na dúvida se aquilo era um milagre, mas depois concluí que apenas tinha me livrado da culpa por ter blasfemado um Ser inexistente, então voltei para o Hedonismo, no qual fiquei enquanto minha saúde permitiu.

Agora, nos estertores da vida, volto a pensar no assunto. Continuo sem acreditar em Deus, porque minha vida toda foi uma merda e nos momentos em que eu estava crente pior ainda. Realmente tendo a achar que somos poeira cósmica consciente de sua própria existência, o que é um negócio realmente estranho, mas é o mais provável. Contudo, simplesmente não aceito a ideia da extinção eterna da consciência, por isso não custa fazer uma fezinha. Não ache que voltei a ser crente. É que nem Mega Sena, você sabe que sua chance de ganhar é de uma em cinquenta milhões, mas você tenta assim mesmo. Afinal, vai quê... Vai que existe a tal da Sansara de que falam os orientais. Ao menos é uma forma de acreditar em transcendência sem precisar crer em Deus, o que torna o assunto minimamente mais crível, embora, sem dúvida, ainda assim nada plausível.

Hoje venho acender essa vela para mim, para encomendar minha alma. Acendo uma segunda e a sopro. É meu 85o aniversário. O diagnóstico foi de um simples nódulo benigno no intestino. Mas quando se tem a minha idade e surge um nódulo, a última coisa que se pensa é que algo benigno virá, então cai a ficha de que nossa situação, desde o maldito momento em que nossas mães decidem não nos afogar e deixam a tal da consciência nascer, não é diferente da do doente terminal ou do condenado à morte, com a diferença de que esses dois têm uma previsão de quando a Coisa acontecerá. Essa imprevisão me faz desde o diagnóstico renovar a vela para mim mesmo todo ano, afinal, cada ano pode ser o Tal. É recomendável a todos que nutrem ou não uma crença que adotem esse ritual a cada ano que nasce. Afinal, vai quê...

Texto: Renato Amado.

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