sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Solo

Imagem: Maria Matina


Estava há meses pensando nesse momento. Depois de trinta anos sem lançar material novo, voltaria ao estúdio com um quinteto pela primeira vez. Inicialmente pensei em usar meu antigo trompete; cheguei a tirá-lo do case, mandei para a revisão. Mas o produtor do disco me disse que uma empresa estava disposta a lançar uma linha de trompetes com meu nome.

Fui a uma reunião com os meninos do marketing da empresa de trompetes, que me mostraram uns slides que ligavam minha carreira à liberdade. “Afinal, o senhor é o maior expoente da era do free jazz, e free jazz nada mais é do que a liberdade, não é?”

Não, meu filho, não é. Mas era tarde pra lhe dizer isso, então eu aprovei a divulgação do meu trompete.

Depois vieram me perguntar sobre as características do instrumento ideal. Peguei meu velho trompete e disse: “façam como esse”. Eles me disseram ser impossível, não teriam acesso àquele material tão nobre. “Eram outros tempos”, me disseram quando viram meu trompete.

Então façam qualquer merda. Mas era tarde para dizer isso, então eu aceitei mexer bem pouco no melhor modelo que eles já fabricavam.

Só então o produtor me perguntou o que eu pretendia gravar. Eu tinha conversado com a rapaziada do quinteto, todos estudantes de música, jovens, ecléticos, antenados. Os meninos me perguntaram de cara: “como o senhor concebe os seus solos?”

“Eu apenas sinto a base e, na hora certa, começo a ouvir o solo que devo fazer tocando em minha cabeça”.

E eles abriram as bocas, espantados. E o que eu disse nada mais é do que a verdade para quase todo artista de jazz. Mas eles não conviveram com muitos artistas de jazz, então se espantaram.

Todos concordaram com minha ideia de fazer uma versão hard bop de “Muito Barulho por Nada”, de Shakespeare. Eles começaram naquele momento a estudar a peça e a se preparar. Mandaria as bases para eles um mês antes de entrarmos no estúdio; todos praticaríamos e improvisaríamos em cima, já no estúdio.

O produtor me perguntou se, dentro dessa ideia, não poderia encaixar uma versão easy listening para uma canção que vinha fazendo muito sucesso na voz de uma jovem cantora do interior de São Paulo.

Não se mexe num álbum conceito. Mas era tarde para dizer isso, então aceitei fazer a tal versão.

De saco cheio de tanta reunião insuportável, decidi me recolher por um mês para praticar e pegar intimidade com meu novo trompete. Passei um mês em casa, tocando várias horas por dia. Ainda tinha boas ideias; as escalas continuavam no sangue, e sabia brincar bem com as sextas bemóis que sempre caracterizaram as tensões do meu estilo de tocar. Estava tinindo.

Todo dia, depois de praticar, passava perto do porta-retrato da minha falecida esposa e sorria para ela. Parei de tocar por sua causa; ela me acusou de estar enlouquecendo, de me afastar cada vez mais das pessoas e até mesmo dela. Quando ela me pediu para largar o jazz e viver a vida com ela, parecia que ela tinha razão.

E eu realmente parei de tocar. Abandonei o free jazz.

Depois disso, ela sempre debochava dos meus discos, dizia que eram insuportáveis, coisa de gente chata, e me disse que eu nunca mais conseguiria tocar.

Estou conseguindo. Mas era tarde para dizer isso, então apenas sorri diante do seu retrato.

Finalmente o primeiro dia no estúdio. Antes de sair de casa conferi se tudo estava desligado - mania de velho viúvo e solitário. Fechei as janelas. Decidi, de última hora, levar meu velho trompete, apenas por segurança. E olhei para o retrato da minha falecida esposa, com seus olhos me fulminando e duvidando de que fosse tocar algo.

Cumprimentei os meninos do quinteto, que estavam super animados. Dei um abraço no produtor, que me disse que o disco iria vender muito na internet. Não entendi o que ele quis dizer com isso. Como parecia ser uma coisa boa, agradeci.

Tomei minha posição.

Peguei meu novo trompete.

“Free jazz nada mais é do que a liberdade, não é?”

“Seus discos são insuportáveis. Coisa de gente chata”.

“Eram outros tempos”.

“Vamos vender muito na internet”.

“Você nunca mais vai pensar em tocar”.

Tanta coisa que a gente ouve na vida.

E naquela hora, no estúdio, quando os meninos começaram a tocar a base da primeira música e eu esperei ouvir o solo que deveria fazer, eu só ouvi o silêncio.

Texto: Saulo Aride.

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