sexta-feira, 30 de março de 2012

Cor da Farda

Foto: Rudy Trindade


A mira está regulada. O apoio bem feito, para amortecer o recuo. O ParaFal já está armado. Basta apertar o gatilho e manter a correta empunhadura para a arma não sambar. É um processo quase inconsciente. É como, para um dentista, tirar um tártaro. Mais um cumprimento da rotina de tiro e a consequência natural. Os miolos voam. Consequência natural. Se você engatar a primeira e pisar no acelerador o carro anda. Consequência natural. 

Uma coisa diferente aconteceu dessa vez, contudo. Uma epifania, um cansaço ou sei lá. Não foi mais um tártaro. Ao invés de procurar o próximo alvo, conforme a orientação padrão, abaixo a arma e começo e lembrar minha viagem para o litoral baiano. Uma falta. Tenho consciência da falta. Sei que me exponho, mas permaneço tomado pela recordação. E um pensamento estranho: será que o último neutralizado não gostava do mesmo lugar? Talvez ele nunca tenha ido para lá, mas quase com certeza gostaria. Todos gostam. Caminho até o corpo. Vejo que ele vestia uma camisa do Spaghetti Incident, álbum dos Guns n` Roses. Gosto do som desses caras. Abro a carteira do cadáver. Um ingresso para um jogo de futebol e um adesivo de um time rival do meu. Estivemos na mesma partida, em lados adversários, embora compartilhando da mesma espécie de paixão. Pego o seu celular. Estava com a internet aberta, logada no Facebook. Vejo seus amigos, sua família, suas preferências, um pouco de sua história. O sujeito parece simpático. Uma bala zune perto de mim. Respondo o fogo de imediato, neutralizando mais um. Troco o ParaFal por uma Taurus e aponto para todos os cantos do beco ao lado antes de avançar por ele. Orientação padrão.
 

Texto: Renato Amado.

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