terça-feira, 20 de março de 2012

Esfinge


 Sabe o que acontece, Maria? Quando tiro uma foto da minha própria sombra na praia da Urca, em frente ao cassino, é como se eu estivesse de burca, sabe? Tal percepção é reforçada pelas garrafas de ferro que parecem uns cantis, colocadas propositalmente por mim do lado direito e que, se assemelhando a ogivas, mísseis ou a outros tipos de rejeitos bélicos, criam um clima de Afeganistão em plena Zona Sul carioca. Não darei o direito ao meu interlocutor de perceber que esta é a praia da Urca. Confundido, ele pode pensar que se trata da Praia Vermelha, coitado, ou ainda de alguma outra praia pouco conhecida. Pode ser que ele descubra, mas talvez erre, justamente por se achar esperto demais. Mal sabe ele que eu pensei na KuKluxKlan quando me posicionei dessa forma, mas o clima afegão e a sugestão que faço do uso da burca, induzida pelos artefatos que posiciono à minha direita, é um golpe de mestre. Desvelo meu excesso pela multiplicidade simples das coisas. Por exemplo, a areia da praia bicolor e de relevos diferentes pode sugerir coisas, é só ser esperto. No meu rosto, quem olhar com alguma atenção pode ver a Mona Lisa. Quem se debruçar com afinco ainda maior sobre a imagem pode ver um gato. Quero deixar essa possibilidade de enxergarem no meu rosto justamente o que eu não estou mostrando, e o mesmo vale para o meu corpo. Coloquei uma calça indiana com as pernas bem folgadas para que pareça um vestido ou uma saia rodada para quem olha rápido. Estou até agora sem conseguir entender muito bem o que é aquela coisa que se assemelha a um cérebro de macaquinho junto com os cantis esquisitos, mas não fui lá para tocar nem para saber o que é. Vou deixar para que inventem, para que pensem que é uma bola de tênis ou uma fruta podre. Deve ser só mais um lixo desse tipo inclassificável que aparece aqui na Urca de vez em quando, trazido pela corrente marítima que carrega para cá alguns copos de cerveja e pedaços de frango à passarinho que caem no mar, consumidos por essa gente moderna, antenada e formadora de opinião que frequenta a Mureta, mas sempre se descuida. Coloquei uma garrafa pet no canto superior direito só para que haja mais possibilidades.

Droga, me sinto ridícula. Só agora que revelei a foto é que eu vi. Sim, Maria, eu ainda sou dessas que revelam as fotografias que tiram; não todas, mas algumas. A sombra me deu um rabo de presente, que ódio!. Mas um rabinho feio e pequeno, que não me torna demoníaca, nem me alude a algum animal. Droga! Mas tudo bem... No mais, espero que ele não veja: coloquei uma série de outros elementos para que ele se divirta e a última coisa que quero é pagar de má fotógrafa. Já dou a ele a oportunidade de me enxergar como afegã ou como membro de uma entidade racista nos Estados Unidos. Joguei um material bélico lá na foto também; estou fazendo a minha parte, sabe? Torço mesmo para que ele não note o rabinho. De qualquer forma, sei que a imagem que eu estou mandando é dificílima e torço muito para que o Igor consiga tirar alguma coisa dela. Que ninguém nos ouça, mas eu coloco umas coisas tão difíceis que me sinto uma esfinge de vez em quando.

Matina, espero que esteja bem. Quando é que você vai começar a tirar fotos? Estou começando a achar que a arte fotográfica pode ser mais divertida e desafiadora do que qualquer outra, sabia? Às vezes, acho que a abstração está na concretude. Estou filosofando um pouco, é verdade. Tenho que ir agora, nos falamos com calma mais tarde. Qualquer coisa, estarei na Benet terça que vem.

Beijos,

Pilar

Imagem: Pilar Domingo
Texto: Igor Dias

3 comentários:

  1. Guilherme Quaresma22 de março de 2012 22:35

    Que linda homenagens às artistas (que tanto admiro) da Casa Benet na Urca! O velho espanhol está certamente muito feliz com as artistas que deixou no mundo para iluminá-lo! Olé!

    Parabéns, Igor!

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  2. hahaha. Muito bom! Me lembrou os contos autorreferentes do Clube da Leitura, mas com uma nuance diferente. Legal!

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