terça-feira, 27 de março de 2012

MALTHUS



Imagem: Maria Matina
Texto: Saulo Aride

Malthus

Chegou um dia em que o mundo ultrapassou sua capacidade máxima de pessoas. Como as experiências de colônias fora do planeta tinham resultado invariavelmente em fracasso, o Governo Central da Terra se viu diante da necessidade de lidar com a crise com medidas drásticas.
Toda a prática da medicina curativa se tornou criminosa. As fábricas de medicamentos foram proibidas de funcionar - na realidade, suas operações já estavam prejudicadas desde que seus espaços foram completamente tomados por desalojados. A medicina preventiva continuou operante por mais dez anos, momento em que se tornou também crime.
O direito deixou de existir. Toda e qualquer lide deveria ser resolvida em até uma hora por meio de duelo até a morte. Em caso de empate, os dois litigantes seriam mortos imediatamente. Todos os crimes eram punidos com execução. Dez anos após o início da crise, com a Lei Mors Omnia Solvit, as execuções passaram a ser imediatas e recomendadas inclusive para suspeitos. Elas eram realizadas por executores especializados no uso de lança-chamas, carinhosamente chamados de malthus.
Sem espaço para enterrar mortos, a opção inicial foi empilhá-los nas ruas, torcendo para que as toxinas decorrentes de sua putrefação conseguissem matar um número ainda maior de pessoas. Contudo, o precioso espaço tomado pelos cadáveres se fez necessário em pouquíssimo tempo. Assim, decidiu-se que todo morto deveria ser imediatamente cremado. Também as execuções seriam feitas pelo método de incineração, que ocupa menos espaço e traz um saudável risco de atear fogo acidentalmente a ainda mais pessoas além do condenado.
As drogas foram legalizadas e seu uso era incentivado pelo governo em campanhas públicas que retratavam o viciado como um heroi dos novos tempos.
Embora não houvesse qualquer hierarquia entre crimes, o sexo era considerado especialmente hediondo. No primeiro ano, antes da criminalização completa, o sexo sem o uso de métodos anticoncepcionais foi proibido pela Lei Onan. Contudo, por causa da difícil fiscalização, muitas mulheres apareceram grávidas, gerando a antipática necessidade de incinerá-las antes do nascimento das crianças. Diante de tamanha atrocidade, decidiu-se proibir a própria prática do sexo. A fiscalização, nesse caso, era mais fácil, uma vez que não havia espaços privados nem metros quadrados ocupados por menos de 8 pessoas.
A lei se provou eficaz e o número de condenados por praticarem sexo era agradável. Com medo de presenciarem o aparecimento de novas grávidas, a população era eficiente em denunciar casais em cópula, normalmente queimados ainda nus, ainda juntos. A falta de sexo ainda tornava o povo mais violento, resultando em mais mortes, o que era um maravilhoso efeito colateral da lei.
No entanto, ao longo dos anos, muitas pessoas começaram a se deprimir pela falta de sexo e de amor. A depressão era algo ruim; em poucos casos, ela levava ao suicídio, sendo, portanto, válida. Na maioria das vezes, os indivíduos apenas se arrastavam de um lado para o outro, sem brigarem entre si, sem correrem qualquer risco de morte.
Um grupo de rebeldes decidiu pleitear a liberação do sexo, argumentando que seus efeitos positivos eram menores do que os negativos. Marcaram uma grande manifestação, em que vários casais fariam sexo ao mesmo tempo, usando preservativos, para mostrar que era possível retornar aos tempos da Lei Onan.
O dia chegou e vários casais começaram a fazer sexo ao mesmo tempo por todo o planeta. Muitos tentaram se afastar deles, mas era impossível estar a mais de cem metros de um casal copulando.
O Governo Central da Terra convocou todos os malthus para incinerar o máximo de manifestantes possível, sem se preocupar com as mortes acidentais.
Os malthus saíram às ruas munidos de lança-chamas e fizeram uma purga inédita, no dia que ficou posteriormente conhecido como Dia de Gomorra.
O Dia de Gomorra matou tanta gente que resolveu o problema da superpopulação com folga. Coube primordialmente aos membros do Governo Central da Terra e aos malthus repopular o mundo. A população do planeta voltou aos índices verificados no ano de 400 a.C., um sucesso inesperado inclusive para os mais otimistas.
E tudo voltou ao normal.

3 comentários:

  1. Maria Emilia Algebaile29 de março de 2012 21:24

    A grande questão é esta: tudo voltar ao normal!!!!! Saulo e Matina, muito bom o post!

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  2. Hahahaha pois é! também gostei muito do post. Obrigada Maria Emilia!

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