sexta-feira, 2 de março de 2012

Volta, Teresa

Volta e meia ele pensava em Teresa, que deu meia volta e partiu numa segunda-feira nublada de um outono imprevisível e nunca mais apareceu. Teresa, que sabia exatamente como se enfurnar em seus braços e mantê-los à sua volta, enroscando-se frágil e docemente, como se pudesse aconchegar o mundo em seu abraço. Teresa partiu e não deixou carta, nem bilhete, apenas algumas roupas velhas e um perfume de lembrança. Partiu e deixou um quadro incompleto de um gato azul, que o encarava de modo perturbador, e o fazia dar voltas na cama, procurando o sono perdido em recordações de Teresa. Depois que Teresa partiu usando um colar verde de três voltas e um vestido comprido estampado, ele pensava que, nessas voltas que o mundo dava, certamente a reencontraria, e ela o veria feliz, de novo inteiro, com outra mulher e talvez filhos e sacolas de compras na mão, voltando do cinema ou do Shopping Center. Teresa partiu enquanto ele pensava que ela saíra para dar uma volta ou comprar um pão fresco ou, quem sabe, tintas novas para pintar outros angustiantes gatos azuis ou vermelhos. Teresa partiu enquanto ele andava às voltas com uma fórmula matemática e, depois disso, ele passou dias a calcular probabilidades de voltar a encontrá-la em esquinas ou bares, cinemas ou teatros, ruas movimentadas ou vielas esquecidas. Depois que Teresa partiu, ele passou a beber todos os dias, a esperar todas as horas, a procurar nos rostos conhecidos todas as suas memórias, a buscar nos rostos desconhecidos qualquer sinal ou solução que a trouxesse de volta pra casa.


Numa dessas voltas da sorte, avistou Teresa entrando num ônibus circular. Tentou alcançá-la, o que foi absolutamente em vão. Pôde apenas sussurrar, no instante em que imaginou que ela também olhava pra ele:


- Volta Teresa.


Naquele momento, ludibriando todas as probabilidades, acreditou, com toda firmeza, que a teria de volta em seus braços.


Texto: Danielle Costa



Imagem: Rudy Trindade

5 comentários:

  1. Parabéns, Dani, e parabéns, Rudy! Muito bom!!!

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  2. Maria Emilia Algebaile2 de março de 2012 18:08

    Que delicadeza! Tanto o texto, quanto a imagem! Dani e Rudy, belo post!

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  3. Kd Teresa? é sempre essa angustiante busca q não tem solução e o fim sempre suspenso nos textos da dani. adorei esse "ludibriando todas as probabilidades". mas para um txt sem solução achei engenhosa e criativa a "solução" do rudy. parabéns aos dois!

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  4. Adorei o conto e a imagem! Parabéns à dupla! :)

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