sexta-feira, 20 de abril de 2012

Desmiolada

Imagem: Fernanda Franco


          Quando fui me confessar com o padre e contei o duplo diagnóstico, percebi um arrepio percorrendo-lhe a espinha. Desconcertado, apenas me mandou rezar dez pais-nossos, possivelmente para dar-lhe tempo de pensar o que responder. Terminei a reza e novamente ajoelhei-me junto ao confessionário.
              “se Deus lhe reservou esse calvário, minha filha, quem somos nós para negá-lo? cumpra sua missão com toda dignidade, que será recompensada no Reino dos Céus”, e me dispensou com certa pressa.
             Eu não estava, contudo, preparada para passar por aquilo. Não havia nem contado ao meu marido. Quando tive coragem para, enfim, fazê-lo, ele disse sem hesitar: “Vamos resolver logo isso”.
               “que Deus tenha piedade da alma de seu homem. reze por ele, minha filha, e não o escute, ele não sabe o que diz”.
                  Transmiti o recado ao meu marido, então ele mesmo resolveu ir confessar-se. Voltou chorando, se penitenciando, e se auto-sentenciando como assassino. Dei-lhe um chá para acalmá-lo e fui contar a história para meu pai.
                 “Minha filha, pra que sofrer?”
                 “Se assim quer o Senhor, assim será.”
                 “Minha filha, se eu tiver câncer, você acha que devo me tratar?”
                 “Claro, pai.”
                 “E uma pneumonia?”
                 “Sem dúvida”
                 “Doença degenerativa?”
                 “Também, paizinho, claro.”
                 “Não estará, então, indo contra a vontade de Deus?”
                Levei a questão ao padre. Ele me respondeu que a vida é sagrada, que podemos prolongá-la, mas nunca abreviá-la. Satisfeita com a resposta achei ter liquidado a questão e fui conversar novamente com papai.
              “Então por que eles queimavam pessoas na fogueira? Por que não se opõem à pena de morte com mais ferocidade do que ao uso da camisinha? Se eles não são vegetarianos, é porque só a vida humana é sagrada. O que é humano, pra eles? Aquele que tem forma de gente, mas um nível de consciência inferior ao de qualquer mamífero, os quais eles não se incomodam em matar, é humano?”
Dessa vez fiquei realmente confusa. O padre, entretanto, recolocou meu mundo no eixo ao dizer que o fruto do amor entre um homem e uma mulher não pode ser nada além ou aquém de humano, pois essa é a lei natural das coisas, criada por Deus, e que era vergonhoso eu questionar isso. Chorei de remorso e voltei para casa muito nervosa, na certeza de que o diabo soltava tenebrosas baforadas no meu cangote. Não conseguiria dormir não fosse o chá que meu marido preparou para mim.

             Seguro-os no meu colo enquanto meu esposo prepara os caixões. Descansem tranquilos, meus anjinhos. Tão lindos e humanos quanto efêmeros. Estou serena, tenho fé em Deus e sei que meu calvário e o deles não foi em vão. Alguma coisa boa virá disso, tenho fé que virá. Deus é bom. Obrigada, Senhor.
 
Texto: Renato Amado

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