sexta-feira, 27 de abril de 2012

ÍTACA



Quando o grupo de doze pessoas teve a certeza de que eram os únicos sobreviventes, o mais velho deles tomou a palavra e falou da ilha onde nasceu e cresceu, um lugar perfeito para reconstruir o planeta. Afirmou que ela provavelmente continuava deitada no mar, imaculada, receptiva; uma esposa virgem para que juntos fossem seu novo Adão. Sem ter a quem seguir num mundo irremediavelmente inóspito, todos concordaram em procurar tal ilha.
Ao chegarem ao litoral, encontraram apenas um pequeno barco de pesca, com três peixes ainda em condições de serem comidos e dois cadáveres em processo de putrefação, distante dos peixes. Jogaram os cadáveres ao mar e saíram em direção à ilha, guiados apenas pelas lembranças do mais velho.
No mar, o grupo se deparou com todo tipo de inimigo que se espera do apocalipse: fome, doença, monstros marítimos e todo tipo de brincadeira que os deuses gostam de pregar nos humanos.
Apesar de tantos riscos, o pequeno grupo seguia com esperança e coragem, apoiado nas histórias que o mais velho contava sobre a ilha. Ali no barco estavam doze heróis.
Eles levaram dez anos. Dez longos anos de sofrimento à deriva até avistarem a ilha.
Ao desembarcarem, perguntaram ao mais velho se era aquela a ilha de que ele falava.
Ele deu uma boa volta pelo litoral. O desenho da margem era exatamente igual. Muitas árvores continuavam com o mesmo tamanho, nos mesmos lugares, dando a mesma sombra. A areia ainda era fina e branca. O vento ainda vinha das mesmas direções.
E, no entanto, aquela não era a ilha de que o mais velho falava, embora a fosse. Havia algo diferente nela, nas cores de suas árvores, no toque dos grãos de areia, no frescor de seus ventos.
A ilha era realmente uma infinidade de coisas positivas.
Mas a ilha não era tudo.
Era a mesma ilha, embora não fosse aquela ilha de que ele falasse.
Não a de que ele falasse.
Mas ele disse que estavam na ilha certa, e nisso não mentiu.
Após levantarem o acampamento, discutiram por muito tempo os modos como exerceriam a função de novo Adão do porvir. Foi quando se depararam que, após tantos anos lutando contra o fim das coisas e mais tantos anos no mar em busca da ilha, estavam todos velhos. Muito velhos.
Uma ilha perfeita ocupada por velhos inférteis.
Sem coragem de subir novamente no barco e enfrentar o mar e sem esperança de encontrar uma nova ilha, o grupo se resignou em aguardar seu próprio fim e, com ele, o fim da humanidade.
E o mais velho de todos desejou, no mais íntimo de seu ser, ainda não ter reencontrado a ilha.

Texto: Saulo Aride
Imagem: Rudy Trindade

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