sexta-feira, 25 de maio de 2012

Embrionário




Preciso me sentir diferente. Preciso estar diferente. Cansei de mim e de minhas urgências comuns. Hoje cortarei meus cabelos. E ficarei diferente. Irei ao trabalho e todos irão notar alguma diferença em mim. E eu vou sorrir como se nada tivesse acontecido. Vou sorrir como se não soubesse o motivo dos olhares de surpresa. Depois sairei pelas ruas e irei aos lugares que costumo frequentar. Farei também a barba. Estou gasto com minha cara. Ando tão sensato. Eu preciso mudar para que eu realmente saiba que fiz algo para me tornar diferente do que sou. Ou tenho sido. Irei ao mercado. Os vendedores irão me olhar como se nunca tivessem me visto. Já me sinto tão bem. Tão diferente de mim, do homem, do comum que me tornei. Comparei cerveja. Eu nunca compro cerveja. Mas hoje eu comprarei cerveja. Passarei horas buscando CDs em promoção. Qualquer cd. Eu vou comprar e vou ouvir música no volume máximo. Ficarei louco. Bêbado e louco e de cabelo cortado e barba feita. Posso até me ver à gôndola catando liquidações como se fosse um cão vira-lata abismado ao ver uma cadela no cio. Eu preciso me libertar disto que sou. E o primeiro passo será cortar o cabelo. Rente, diferente e ficarei mais jovem. Faço questão de visitar amigos para que me vejam diferente. Eles irão sentir inveja de mim. E marcarei encontro com a mulher que me deixou de boca vazia. Eu ainda amo a mulher e sei que ela tem sua vida e é tão mundana a criaturazinha. Eu quero que ela me veja. Este sou eu, mulher. Eu vou dizer isto. E talvez, de cabelo cortado e barba feita, ela pense duas vezes antes de jogar à solidão um homem como eu. Eu sou tudo. Será que não percebem? Eu sou forte, sou homem, conheço mundos, leio livros, tenho estantes e livros e clássicos e tenho um passado de erros gigantescos que me amargam a língua. Mas eu vou cortar o cabelo, e fazer a barba, e comprar cerveja, e beijar a boca da mulher que amo. Ou não amo. Apenas preciso dela. E vou olhar meus livros de forma que eles saberão com quem estão lidando. Os livros precisam saber de mim. Precisam saber das mãos que os tocam. Dos olhos que os analisam. Eu sou homem e sou maiúsculo e minhas derrotas não fazem de mim um mero coitado. E toda minha vida irá mudar após este corte de cabelo. E após a barba feita. E após a cerveja. E, após me olhar no espelho, o recém-nascido de mim mesmo estará, enfim, transformado.

Imagem: Paulo Resende
Texto: Leticia Palmeira


5 comentários:

  1. Um puta post. A imagem do Paulo traz a sua assinatura e o texto da Letícia é magnífico. Excelente!

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  2. Um puta post. A imagem do Paulo traz a sua assinatura e o texto da Letícia é magnífico. Excelente!

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  3. Caramba, adorei! Muito enérgico o personagem. Quem de nós nunca viveu isso ao cortar o cabelo? (naturalmente, nem sempre de forma tão intensa... rsrsrs)

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  4. Maria Emilia Algebaile28 de maio de 2012 22:21

    Nossa! Haja fôlego! Paulo levantou um bolão e a Letícia cortou bonito demais....

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