terça-feira, 8 de maio de 2012

NÓS


            A primeira coisa que percebi foi a tatuagem em seu braço esquerdo, formando três anéis laçados entre si.
            Ela estava sentada em um banco branco no corredor do hospital e bebia em um copo de isopor um café amargo e requentado. Seus olhos ora vigiavam o lento gotejar do bebedouro ora refletiam o conteúdo do copo de isopor. Sentei-me ao seu lado, no banco branco, como figurante da cena espectral. Tudo era excessivamente pálido: sua pele, o chão, o uniforme das enfermeiras, os copos de plástico, os copos de isopor. A luz fria fluorescente iluminava aquela branquidão toda. Na mão esquerda, ela girava três anéis, em ouro, prata e bronze, que, entrelaçados, se tornavam um só.
            Fiquei por um tempo parada, sem pensar em nada, sem sentir absolutamente nada, quando ela, num movimento equivocado, deixou que o anel escorregasse até o chão. Notou meu reflexo e desculpou-se.
            “Desculpe-me”, ela disse, uma voz baixa, que parecia pedir desculpas por existir.
            Achei que a conhecia de algum lugar, e certamente não era daquele hospital. Os cabelos retos caíam por sobre os olhos sérios e cabisbaixos, olhos e cabelos marrons, da mesma cor que a blusa. Tão bonita e tão monocromática, pensei.
            “Ele falava muito de você”, ela disse olhando pra mim.
            Neste instante, reconheci a namorada de quem ele falava, mas não apresentava a ninguém. Queria dizer o mesmo, mas não consegui. Não queria que minha resposta fosse uma retribuição consoladora, e portanto, nada respondi, por mais que meu silêncio pudesse parecer desagradável. Fui conscientemente desagradável perante a existência dela ali, que se afirmava timidamente ao meu lado, anunciando um tormento recíproco. Ela continuou:
            “Não sei por que ele fez isso, estava tudo indo bem, e...”
            Ela esperava que eu a consolasse, que eu lhe explicasse os motivos dele, ou apenas queria falar. Tampouco eu sabia das razões que ele tinha para fazer o que fez. Aliás, eu pouco sabia das razões que ele tinha para fazer muitas coisas que fez ao longo da vida. Ninguém, além dele, saberia. Logo em seguida ela parou de falar e fiquei ao seu lado, em silêncio. Foi assim durante alguns dias. Ela era insistentemente monocromática, monotemática, e também terna, atenciosa, pontual. Pensei se poderia ser diferente, considerando a situação que se encontrava. Em que nós duas nos encontrávamos. Eu também, ali, esperando um consolo qualquer, uma atenção especial, a voz de alguém conhecido, que porventura nos acordaria desse pesadelo-branco-hospitalar.
            Ninguém nos acordava. Ninguém nos consolava.
            Não ficamos amigas - isso jamais aconteceria - mas nossas visitas eram sempre no mesmo horário, antes do anoitecer, quando havia a mudança de turno dos médicos e enfermeiras. Foi assim durante todo aquele mês. Sentávamos uma ao lado da outra. Eu impunha um silêncio que a torturava. Ela não o evitava, ao contrário, o aceitava como um flagelo, uma penitência. Culpava-se por algo que desconheço. Por outro lado, ela me afligia com questões sem respostas, perguntas tortuosas e pontiagudas. Éramos uma para outra tormento e ilusão, tudo ao mesmo tempo.
            Aconteceu num sábado, quente, de verão. Cheguei ao hospital e ela estava sentada segurando um copo de café, sozinha, chorando. Tudo que consegui dizer-lhe foi uma mentira, a de que eu acreditava que um dia entenderíamos os motivos dele.
            Por causa disso e por causa da saudade, a partir de então, a cada ano nos encontramos exatamente no dia em que ele morreu. Durante algumas horas, bebemos café requentado, costuramos lembranças frouxas e nos investigamos numa reciprocidade torta, tentando uma solução impossível. Continuamos a nos penitenciar com silêncio intermitente e perguntas incisivas, pontiagudas e insolúveis. Meu silêncio a ensurdecia. Suas questões me atingiam como uma faca afiada, prolongando-se ao longo do meu corpo. Sabíamos, entretanto, que aquele sacrifício não era em vão.
            Ela acreditando que, com minha ajuda, descobriria os motivos dele.
            E eu, paciente e constantemente, alimentando essa ilusão e esse flagelo mútuo. Apenas porque, ao lado dela, eu estava muito mais perto dele.

Música: Gilson Beck
Texto: Danielle Costa

4 comentários:

  1. Maria Emilia Algebaile8 de maio de 2012 10:45

    Dani e Gilson,
    Que lindo texto! E a música nos leva a um mergulho... Parabéns aos dois!

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  2. que bom ouvir mais uma composição do Gilson, sempre esses climas de pesadelo, em q se misturam temor, expectativa e desejo. e os "nós" da dani, com seus destinos entrelaçados "tentando uma solução impossível". lindo o final desse flagelo mútuo...

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  3. Isso está muito muito bom! A composição pontiaguda do Gilson e o flagelo mútuo e pontiagudo que a Dani nos narra estão muito muito bons!!!

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