sexta-feira, 11 de maio de 2012

PERDIDA




Porque assim se julgava. Perdida. Depois de atender o último cliente da noite, e após o fechar das portas do bordel, se lançou assim na cama da cabine. Um pedaço de pano, que não se pode chamar de lençol, no meio das costas, o restante do corpo nu. Estava exausta. Não das cópulas em si. Já se acostumara a não sentir mais repulsa dos homens que a usavam. Ela os encarava como pobres diabos. Apenas seguiam seus instintos como cães que farejam as cadelas. Estava cansada de si mesma.

Quando perguntavam seu nome, ela respondia: Pecado. No fundo, se sentia uma pecadora, por fornicar por dinheiro. Dinheiro para o pão, para a moradia, para as roupas, para a vida. Que vida? Esta vida? "Minha vida é um erro", dizia ela. "Sou uma bastarda, expulsa pelo padrasto por que não quis dar pra ele". E estava ali, no lupanar, exausta. Tão exausta que pediu para o cliente semanal, que era veterinário, um veneno. Forte o suficiente para levá-la para o céu ou para o inferno. Sorria quando se imaginava num grande bordel decorado de vermelho, com outras putas incandescentes num inferninho dentro do Hades.

Como você a vê, ela foi encontrada. Morta. Vinte e três anos. Aonde estará sua alma agora ?

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Com exclusividade para o CLP, “PERDIDA”, um conto de Claudio Pereira, inspirado em ilustração de Marco Bravo, convidados do blog.

Claudio Pereira é 'blog-escritor' desde 2007 (apontamentos.blog-br.com); participa do Clube da Leitura dos Baratos da Ribeiro desde janeiro de 2012 e  está escrevendo um livro (antilolita2011.wordpress.com).

Marco Bravo é ilustrador, criador de arte e pintor (bravostudio.com.br)


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