sexta-feira, 18 de maio de 2012

Uma inconclusa história de amor


Começou um pouco antes das onze horas de uma noite de um verão vulnerável e perturbador, e estávamos em uma festa num apartamento no Leblon, ouvindo Roxy Music, que tocava numa vitrola de 1975, quando Helena Virginia apareceu carregando uma sacola de supermercado, com latas de cerveja importada e bombons de chocolate branco.

- Não, não ouvimos Roxy Music nessa noite. Eu lembro que tocava T. Rex, e você estava se distraindo com um filme da Alice no Dvd.
Logo que chegou, Helena Virginia cumprimentou quase todos na festa e, minha estimativa, é de que havia cerca de umas trinta pessoas pela casa. Algumas, próximas à janela, bebiam drinques coloridos, com canudos fluorescentes, umas poucas dançavam 'love is the drug' de um jeito enigmático, com o qual ela se identificou imediatamente, ficando alguns minutos a balançar os braços, mimetizando um dos companheiros de pista.

- Nem ouvi 'love is the drug' nessa noite. E se me identifiquei imediatamente com tal dança enigmática, como pude cumprimentar trinta pessoas logo que entrei?

Durante algum tempo, vi Helena Virginia bebendo suas cervejas importadas e conversando com um sujeito que, exatamente à meia noite e quarenta e três minutos, tocou uma música do Tom Waits enquanto uma mulher loira e bem magra dançava uma espécie de dança dos sete véus de Salomé.

- Eu nunca ouvi tamanha insanidade. Não era uma dança dos sete véus. Era uma performance que você não entendeu.
Bem, certamente, Helena Virginia não conseguiu entender muito do que se passava porque, nessa hora, se recostou à parede e não parou de bebericar a cerveja importada, balançando a cabeça, de um modo muito sutil, quase imperceptível, de um lado para o outro. E, pelo pouco que conheci de Helena Virginia, eu soube que quando ela ficava constrangida com algo, ela bebia.

- Era uma performance sobre Alice e, certamente, eu estava entendendo o que se passava. A festa era sobre Alice, Alice no país das maravilhas. Até hoje você tem dificuldades com isso.
Era uma festa sobre Alice no país das maravilhas e eu estava assistindo um filme tcheco, de 1989, quando ela se sentou ao meu lado, segurando uma lata de cerveja importada, e me disse que aquele era o melhor filme da Alice.

- Não foi isso que eu disse. Eu disse que aquela era a melhor cena do filme. Mas, pensando bem, eu concordo que seja o melhor filme da Alice já feito.

Descobri naquela noite que Helena Virginia gostava de filmes de terror, de andar de bicicleta, de crianças, de bolhas de sabão, de coelhos brancos e de bombons de chocolate branco.

- Eu não gosto de todas as crianças, assim como não gosto de todos os filmes de terror.
Descobri que Helena Virginia tinha medo de cacos de vidro, de estradas escuras e dias muito calorentos.

- Também tenho medo de coalas. Eu disse isso nessa noite.
Coalas. Ela disse que tinha medo de coalas e acho que foi nesse instante que me apaixonei por sua personalidade indefinível e inquieta.

- Você se apaixonou por mim?
Descobri que ela parecia sempre atrasada, como o coelho branco.

- Isso você supôs porque eu disse que cheguei tarde na festa.

Na melhor cena do filme, Helena Virginia me disse: Feche os olhos. Vou te contar o que está acontecendo.

- Sim, de fato eu disse pra você fechar os olhos.

Mas enquanto meus olhos estavam fechados, ela ficou em silêncio.

- Porque nada mais aconteceu.
Talvez eu tenha dormido enquanto a curiosa e sinistra menina loira repetia numa tela grande de LCD “Estou atrasado, estou atrasado, dizia o coelho branco”. Só fui abrir os olhos porque, de repente, parei de ouvir Bowie cantando Moonage daydream e passei a escutar vozes embaralhadas por exclamações e gritos.

- Não tocava Moonage daydream.
Por que ela me pediu pra fechar os olhos?

- Porque nada mais aconteceu.
Por que ela foi embora pra sempre?

- Porque nada acontecia.
Oito anos depois, lembro o tempo inteiro de Helena Virginia e daquela noite de um verão vulnerável e perturbador, quando ela se jogou da janela do décimo primeiro andar enquanto tocava Moonage daydream numa vitrola de 1975.

- Não tocava Moonage daydream. Quantas vezes terei que repetir?
Eu sei exatamente que música tocava, Helena Virginia. Saiba que alguém que pensa em você todos os dias há oito anos não esquece esses detalhes.


Texto:  Danielle Costa
Imagem: Marcos Sêmola

3 comentários:

  1. Que lindo, Danielle! A imagem do Sêmola fez você viajar de verdade! Adorei o post!

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  2. uauau "verão vulnerável e perturbador", como aliás são os contos da dani. e este é mais perturbador ainda q os outros... vou botar pra ouvir agorinha moonage daydream...

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