segunda-feira, 25 de junho de 2012

Foda





Foda muito. Foda
os dias de tatibitate
e brincadeiras com os primos
entre as mangueiras do quintal.
Foda o menino com espinhas
que não teve coragem de te namorar.
Foda quem primeiro te fodeu.
Foda quem quis foder mas não comeu.
Foda os dias de brisa na praia
e a vontade de tirar o biquíni
e cair nua no mar.
Foda o desejo de abandonar o escritório
e ir ao cinema comer pipocas.
Foda aquele idiota
que disse que tinha uma grande piroca.
Foda o blog a que não se consegue dar continuidade.
Foda o relacionamento enrolado
tão difícil de cortar.
Foda a amizade que é só amizade.
Foda o amor que é menos que amor.
Foda a noite só em frente à televisão
ou na internet
fuçando fofocas na rede social.
Foda o pânico da solidão.
Foda o que só se repete.
Foda o atraso no ciclo menstrual.
Foda o livro há semanas na cabeceira.
Foda essa marca na face
que parece coisa de idade.
Foda a idade, a vaidade, a maldade
que às vezes aflora
e te deixa sem eira nem beira.
Foda a raiva, a tpm e o rancor.
Foda o desejo de dar agora.
Foda o sexo em si, a coisa em si,
e não saber o que é o ser-para-si.
Foda o que não vai para frente
a pedra no meio do caminho
o que ficou para trás, o impasse.
Foda muito. Foda-se.

Imagem: Pacha Urbano
Poesia: Guilherme Preger

8 comentários:

  1. Muito bom.
    Me vejo dizendo vários trechos desse poema. ("Foda o blog a que não se consegue dar continuidade./ Foda o relacionamento enrolado/ tão difícil de cortar." A boa poesia, talvez,seja essa: singular, mas que pode ser compartilhada.
    E excelente a "harmonização" do poema com o desenho. Poesiax2.

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  2. Melhor que Quintana no "Ode ao Burguês"

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  3. Bom poema e bela estreia do Pacha. Ampliei a imagem aqui e fiquei admirando-a. Muito boa mesmo.

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  4. Eu achei IMPRESSIONANTE a dualidade Fóda/Fôda e as possiblidades duplas de interpretação do poema. Aliás, Preger, você me convenceu: seu alter-ego feminino é muito verossímil. =PP haushuahsuhua E a imagem do Pacha, ótima; excelente estreia. Parabéns aos dois!

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  5. Corrigindo: Bandeira... ô minha velhose...

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  6. Concordo plena e totalmente com o Igor sobre a interface Fóda/Fôda, fiquei pensando justamente nisso, e às vezes eu lia o verso com o 'o' aberto, noutras eu o lia com o 'o' fechado (o que mudava o sentido do que era lido) e, no final, só me coube dizer, com o perdão do trocadilho (e foda os trocadilhos, foda os perdões, foda os dias azuis e os céus nublados, foda as quintas-feiras!), ao final de tudo, 'oh!!!", com o acento bem agudo e invisível em cima do meu 'o' antes do 'h'!!! Foda!

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