sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mina de amantes

Esfregou os olhos, bateu com a cabeça contra a parede, olhou de novo, exclamou que não poderia ser real, chamou um colega para também analisar o ultrassom e se certificar de que não estava delirando. “O feto não tem consistência”, ele disse, “é poroso, como se fosse revestido por algo diáfano ao invés de pele”.
Os mestres e doutores que passaram os meses seguintes analisando o caso foram unânimes: “não fazemos ideia”. Apenas disseram que, fosse o que fosse, imaginavam improvável que um tecido externo tão frágil fosse capaz de proteger a criança adequadamente e que meu filho poderia até se desintegrar durante o parto. A despeito da indireta, optei por não abortar. Devo confessar: estava curiosa para saber o que - e em que estado - sairia de minhas entranhas.

        O parto seria por cesariana. Após os regulamentares meses finalmente descobriria de que era feito meu infante. Entretanto, quando o médico tentou segurar o bebê ele se desfez em suas mãos para, logo depois, ressurgir entre minhas pernas, chorando como qualquer recém-nascido, mas, para espanto geral, de seus olhos escorriam lágrimas de areia. E a esquisitice do guri não parava aí, pois os próprios olhos eram de areia, assim como a boca, onde algumas lágrimas iam morrer, e as bochechas por onde elas escorriam, e o pescoço, o tórax, as pernas, enfim, tudo, até seu sexo e cabelo eram de areia. Areia mole e seca.
Nos primeiros dias ele ficou sobre um berço comum, depois o passamos para uma grande bacia que viramos num funil pelo qual ele escorreu até readquirir sua forma num grande vasilhame. Assim ele pode ser levado para casa. A par desta curiosidade, a criança era como qualquer outra. Chorava a plenos pulmões, mamava, fazia xixi e cocô
Embora os estudiosos não encontrassem um motivo para a particularidade do menino, eu não tinha dúvida: ele foi concebido na praia. Só isso não explica, afinal não foi o primeiro e não será o último ser humano a ser gerado nesse ambiente. É que há alguma coisa na minha genética que faz com que minhas proles sejam do material sobre o qual foram concebidas. Não acredita? Pois saiba que após essa criança fiz várias provas dos nove. Concebi novos seres humanos em lugares como: sobre um pedregulho, num campo de girassóis, dentro de um rio, em cima de uma televisão... Até numa cama eu concebi! Não deu outra: todos os meus filhos são mimeses do marco zero de suas existências. O problema era sustentar toda essa molecada com necessidades tão diversas, sobretudo sendo mãe solteira, já que todos os pais desapareciam após minha primeira negativa de abortar a “aberração”. Mas a solução tardou apenas nove meses após eu visitar uma mina de diamantes no horário de expediente.


Texto: Renato Amado
Imagem: Leticia Hasselmann

7 comentários:

  1. De que material é feito a criatura que é gerada em cima de uma televisão? Legal o conto e a arte da Leticia! Parabéns à dupla!

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  2. Nossa, q imagem sugestiva, hem? valeu Renato, texto super criativo!

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  3. Eu quero saber aonde o Renato foi gerado.

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  4. Irada a ilustração Leticia. Demorou pra minha ficha cair e quando caiu fiquei amarradaço.

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  5. Na verdade, a primeira vontade foi de partir para uma ilustraçao caotica e cheia de elementos, mas acabei achando esse caminho rsrs Adorei o conto!

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  6. Muito bom o conto do Renato e a imagem da Leticia. A ideia do conto é muito legal e gostei do caminho que a Leticia escolheu para o desenho. :))

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