quinta-feira, 21 de junho de 2012

Rotina diária




Todo dia, menos hoje. Chego todo dia entre seis e seis e meia, vou até o banheiro onde lavo minhas mãos com sabonete de glicerina, a casa fica perfumada e eu me sinto asséptica. Então me dirijo à minha cama, agacho-me ansiosa e retiro de debaixo dela a caixa retangular onde se encontra, guardado, o meu bebê. Ele acorda nesse momento, encara-me com olhos de reconhecimento e percebo, exatamente aí, que minha vida tem um sentido. Ele vai se espreguiçando e eu vou brincando, cantando, comentando os lances do dia, que ele não compreende como um adulto compreenderia, mas entende que me comunico com ele. Então preparo as coisas, meu jantar, seu banho, sua mamadeira, tudo muito bem cuidado. Minha casa é arrumada, meu bebê é sadio, nossa alimentação é regrada. Quando tudo está em ordem, sento-me para ver o jornal, também comentando alguns assuntos. O meu bebê é observador, não chora nem faz manha, a não ser quando vai dando onze horas e ele começa a ranhetar de sono. Esse é o momento em que começo a ajeitar a parte da cama em que ele costuma dormir, ao meu lado, próximo à parede, para não cair. Em breve ele adormecerá e seu sono é sem sobressaltos, um sono que compreende a vida. Quando acordo, no dia seguinte, vou ajeitando as coisas antes de sair e tenho uma conversa com ele, preparando-o para as dez horas em que fico fora de casa. Arrumo sua caixa da maneira mais aconchegante que consigo. Acomodo-o lá, confortavelmente, e fecho a caixa, trancando-a por fora e guardando-a novamente debaixo da cama. Nenhum som sai de lá de dentro. Posso ir ao trabalho tranquila, sabendo que ele adormeceu e é embalado por sonhos próprios de bebês, sonhos picotados, coloridos e sem palavras. Ele só acorda quando chego, lá pelas seis, seis e meia da tarde, mas hoje eu me atrasei, a vida apronta desvios, e quando abri a caixa, ele se agitava, o olhar esgazeado, talvez houvesse acordado há mais tempo ou sentisse falta de ar, ele ainda não adquiriu a técnica da vida, era preciso que eu preparasse a caixa para que atrasos inesperados não o fizessem asfixiar. O meu bebê só fica sem ar quando está acordado e só acorda depois das seis da tarde. Mas esse problema de hoje não será suficiente para traumatizar o meu bebê. Nessa noite, cuidarei dele com ainda mais zelo, serei ainda mais maternal, e todo esse trato compensará quaisquer momentos de horror e aniquilamento que ele tenha porventura passado dentro da caixa fechada. 

Imagem: Carlos Monteiro
Texto: Vivian Pizzinga
 

8 comentários:

  1. haha. Bom conto. E que bela estreia do Cadé. Espetacular a imagem!

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  2. Nossa q conto fantástico e assustador. o quanto de horror esconde-se sob nossas rotinas regradas e assépticas. conto perfeito para a estreia de Carlos Monteiro, com suas imagens q parecem prescindir de palavras. só mesmo vivian para encarar esse desafio. parabéns aos dois!

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  3. e só completando: o início desse conto é absolutamente genial!

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  4. Maria Emilia Algebaile22 de junho de 2012 23:23

    É um post para nos tirar "de dentro de nossa ciaxa". Muito bom! Parabens ao Carlos e à Vivian!

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    1. Maria Emilia Algebaile22 de junho de 2012 23:24

      Rsss... caixa...

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  5. Adorei mesmo! É extremamente imaginativo. tem um lance de (sur)realismo fantástico que me lembra muito Cortázar. O absurdo sendo contado de maneira segura e natural, como se tudo estivesse dentro de sua mais perfeita ordem (e não está?). E a imagem é extremamente expressiva. Parabéns à dupla!

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  6. Batatamente que é o Bebê de Rosimere!!!

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