segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sucesso


Na sala da maternidade, dois bebês foram colocados lado a lado. Suas famílias compartilhavam suas alegrias e admiravam a beleza de seus novos membros atrás do vidro. Um recebeu o nome de João. O outro foi batizado com o pomposo nome de Luís; segundo a mãe, nome de rei.
João rapidamente se destacou na escolinha por sua inteligência. Era o querido das professoras, comportado e sagaz. Não tinha muitos amigos. Luís, por outro lado, era o rei dos esportes. Campeão em qualquer atividade física que fosse proposta, ídolo da garotada com seus dribles inesperados.
João cresceu e não se tornou exatamente um novo Einstein. Luís também não veio a ser um novo Pelé.
João conseguiu rapidamente um ótimo emprego numa empresa multinacional, sendo considerado por todos uma das grandes aquisições da corporação. Subia de cargo rapidamente e em poucos anos já coordenava uma equipe de tamanho médio.
Luís nunca descobriu exatamente a faculdade em que se encaixaria. Tentou diversos cursos, mas foi mais feliz em seus trabalhos, sempre pouco desafiadores, mas também pouco exigentes. Trabalhava para bancar suas grandes festas aos fins de semana, quando reunia seu imenso grupo de amigos para beber, comer e jogar bola.
João não tinha um imenso grupo de amigos. Pelo contrário. A cada promoção, ele perdia os poucos que tinha conseguido manter.
Em determinado momento, João parou de ganhar promoções. Ele deveria tomar a coragem de ir para uma empresa menor para continuar crescendo, ou se arriscar a abrir sua própria. Ele não teve coragem de fazer nenhum dos dois.
Luís começou a ter dificuldade em trocar de empregos ao passar dos 45 anos. Por isso, estacionou em um que dava condições de manter sua rotina de festas em casa e pagar o colégio de seus dois filhos.
João tinha apenas um filho, que morava com a mãe, de quem se separou numa de suas promoções, por coincidência.
Numa dessas incríveis coincidências da vida, João e Luís infartaram mais ou menos na mesma época e vieram a ser atendidos no mesmo hospital, lado a lado, no CTI. Suas famílias compartilhavam seus medos a respeito da morte de seus antigos membros ao vê-los por entre as cortinas de cores pálidas do hospital.
Tudo tinha os levado ali, àquele momento em que precisavam de enfermeiros para limparem seus dejetos duas vezes por dia. Ambos tanto fizeram com suas vidas e recebiam banhos matinais de esponja dados pela mesma enfermeira mal-humorada.
Em dado momento, João olhou para Luís e disse: “não existe sucesso nesta vida”.
Luís respondeu: “nunca achei que existisse”.
E, baixando a cabeça, expiraram.



Texto: Saulo Aride
Imagem: Paulo Resende

4 comentários:

  1. Hahahah isso foi um elogio?

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  2. Seu texto é excelente Saulo...By the way... somos todos iguais. Em qualquer lugar do mundo, somos todos iguais.

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