sexta-feira, 13 de julho de 2012

Destino




(Eu os ouço)

- Ainda penso em guardá-lo. No mínimo como um símbolo da derrocada do antigo.

- Não sei se apenas como troféu. Eles ainda podem ser úteis pra alguma coisa.

- Eles quem?

- Eles não existem mais. Tudo o que temos é ele. Ele e pronto. O último. Não há como fabricarmos novos.

- Tem certeza? Eles desenvolveram uma espécie de religião chamada engenharia genética. Segundo livros que li a respeito, tudo o que mais queriam era conseguir reproduzir seus próprios corpos para nunca abandonarem o planeta.

- Se isso for verdade, pode ser que ele próprio saiba se multiplicar.

- Nem todo humano sabia os segredos da genética.

(Silêncio)

- Na verdade, a grande maioria deles levava vidas muito próximas da que esse daí leva agora: em busca do básico para não morrer.

- Os relatórios arqueológicos não reportam que eles tenham sofrido com isso. De fato, pode ser que ele esteja, inclusive, bastante satisfeito com sua situação presente.

- Não é verdade. Há relatos, sim; não do sofrimento, mas de como o suportavam. Li que eles inventaram uma coisa chamada entretenimento. Não sei exatamente como funciona, mas os livros que os arqueólogos encontraram diziam ser algo que aliviava dores e outros sintomas. Eles tinham dores; o entretenimento dava o alívio.

- Não sei qual relatório o senhor leu, mas em toda a literatura com que tive contato o entretenimento aparece como uma droga letal. Alguns estudiosos inclusive dizem que foi a causa do desaparecimento.

- Tudo o que a nossa sociedade não precisa é de mais uma droga.

- Bom, senhores, tudo leva a crer, então, que tenhamos descoberto o último membro de uma espécie absolutamente inútil. De modo que...

- Não nos precipitemos. Concordo que ele parece inútil, mas vamos refletir mais numa noite e amanhã decidimos o destino do último exemplar da espécie humana.

(Não os ouço mais)


Imagem: Marcelo Damm
Texto: Saulo Aride

5 comentários:

  1. Muito bom, Saulo! Adorei e me fez lembrar, sabe-se lá por quais nexos (mas talvez sabendo) do que o Jonathan Franzen falou na mesa dele na Flip, em que questiona a ideia de liberdade que é vendida para nós - exemplares ainda múltiplos da espécie humana -, a ideia de que liberdade é ter vários tipos de maçanetas para escolher, vários tipos de portas para colocar nas nossas casas e, estendendo o assunto, talvez várias opções de filmes para escolhermos no cinema de quinta à noite, quem sabe. A imagem interessante e expressiva de Damm ganhou desdobramentos impensáveis com esse texto!

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  2. Saulo... sempre o Saulo... Sensacional! Obrigado, meu bom!

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  3. sim, Vivian, o Franzen falou isso, ou foi no texto q ele leu. a liberdade no capitalismo é um pouco por aí: vc pode escolher seu celular entre a oi, a claro, a tim ou a vivo, olha q beleza! mas como no sinistro texto do saulo e na não menos sinistra imagem do damm, é preciso admitir q o destino do ser humano é sua inutilidade mesmo, chave de sua verdadeira liberdade. ou como diria oscar wilde: toda arte é completamente inútil...

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  4. Acho que na preocupação excessiva por enxergar apenas o lado utilitário das coisas vamos descobrir cada vez mais nossa (saudável) inutilidade, que numa ótica desse tipo acaba sendo algo doloroso... Valeu pela imagem, Damm!

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