quinta-feira, 5 de julho de 2012

O menino da bicicleta




 ─ Aê rapá, por que não atendeu ao telefone?
─ Ocupado, rapá. Acha que é fácil. Monte de coisa pra fazer.
─ E de que horas tu chega?
─ Tô batendo por aí em meia hora.
─ Meia hora? Tu vem a pé, rapá?
─ Tô de bicicleta.
─ Bicicleta? Tu vai chegar amanhã, rapá.
─ Cala teu bico. Sou homem de me atrasar?
─ Então toma teu rumo logo. O pacote vai ser entregue às 5.
─ Chego antes. E pode contar comigo na entrega.
─ Falô, rapá. Tô na espera.
E lá se vai Tica pedalando. Pisa fundo no pedal. Do centro ao morro vai rápido. Ele tem certeza disso. Vai pedalando. Tica sabe que não farrapa com ninguém. Se tem entrega, chega sempre antes. Mete o celular na cueca e vai. Vai passando pelos carros. Vai cruzando rua. Apito de homem não me assusta. Tica não tem medo de nada. Só tenho medo de deus. Ele sim me bota medo. Se um dia morro, vou de bem com o pai, a mãe e o espírito santo. Tica corre que vai longe. Dobra esquina e quase atropela casal que toma sorvete. Bacaninha agarrando menina na rua? Que é isso, mermão? Tica sai gritando e pedalando. E ele não se preocupa com o tempo. Se chover, eu me molho. Se o sol queima, fico ainda mais preto e mais a cara de meu povo. Tenho orgulho de mim. Homem algum me põe pra baixo. Sai do caminho, dona senhora, grita Tica. Sai do caminho que tô passando. A senhora reclama do menino que passa que nem trem bala. A bicicleta bamboleia no meio da gente. Via de ciclismo. É por aqui que eu vou. Não sei ler, mas sei falar. É isso que conta. Eu me comunico bem. Uma beleza. E hoje vou botar moral na hora da entrega. Não quero mais isso de ficar centro e morro no mesmo dia. Vou falar na séria pro Valdinho que não faço mais de dois serviços por dia. Faço não, Valdinho. E se ele encrencar, falo na regra que ele precisa mais de mim do que eu dele. Valdinho vai vê. Tica passa pelo sinal. De raspão no ônibus, de raspão em carro, de raspão em tudo. Nem bala me pega hoje. Lembro do tiro que me pegou. Merda minha aquela. Eu vacilei. Por isso tenho que deixar claro meus horários de trabalho. Valdinho vai ter que engolir minha real. Tica tá chegando. Sente frio na barriga que já tá quase na hora da entrega e o pessoal todo anda nervoso com essa entrega que é grande. Parece que envolve gente de fora. Quero nem saber. Vou na moral. Só tenho medo de deus. E faço meu trabalho com seriedade. Vai chegando Tica e o telefone tocando dentro da cueca. De bicicleta não trabalho mais. Quero uma moto. O Valdinho vai ter que me arranjar uma moto. Vai facilitar tudo pra mim. Atende ao telefone guiando guidão e se equilibrando. Tô na área. Na minha casa, mermão? Tá doido. Minha mãe chega logo do trabalho. Então vamos fazer rápido essa entrega, mermão. Minha família fica fora disso. Tica sente fúria de quem protege família e medo de perder o bem maior. Sobe o morro. Passa gente. Tica não cumprimenta ninguém. Chega ao barraco sem fôlego e puto da vida porque o Valdinho sacaneou. Na minha casa, Valdinho? Já quase escuro, Tica entra e não vê nada. Aí a luz acende e todo mundo grita (mãe, namorada, irmão, irmã, o pessoal e Valdinho): Feliz Aniversário, Tica! Era festa surpresa. Tica amolece o coração e abraça um por um. E aê, rapá? Gostou da entrega? Tica tem mais nada a dizer não. O menino da bicicleta, aliviado que não tem entrega, chorou.

Imagem: Rudy Trindade
Texto: Leticia Palmeira

4 comentários:

  1. Gostei do conjunto texto e obra, e achei bacana essa formatação jornalística. Achei o final bonito e surpreendente.

    ResponderExcluir
  2. Surpreendente mesmo. E doce. A imagem passa uma primeira mensagem clara, doce, lúdica. Quando a gente começa a ler o texto, vem aquela voz da desconfiança e a gente preenche o miolo da imagem com as elucubrações dos nossos miolos tão acostumados a tentar ver o além... e não imagina o desfecho. Desfecho que se reúne com a primeira impressão da foto... bacana esse post. A imagem e o texto trabalham o mesmo conteúdo, um preenchendo o outro. Parabéns Letícia! Parabéns, Rudy!

    ResponderExcluir