terça-feira, 17 de julho de 2012

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 Os desejos classificam-se em dois tipos: os não-realizados e os que, quando realizados, mostram-se frustrantes. É um lugar-comum dizer que vivemos numa eterna insatisfação por estarmos sempre em busca de satisfazer um desejo e, ao fazermos, partimos para outro e assim por diante. Contudo, ao menos as pessoas costumam ter um breve momento de gozo ao efetivarem suas ambições. Eu não. Sou um jogador que, ao vencer um campeonato, ao invés de comemorá-lo, imediatamente após a conquista vai treinar para o seguinte, com esperança de que nele encontrará o gozo da vitória. Mas a sina se repete.
Impossível não me lembrar de Sísifo. Com um agravante: a pedra chega ao cume. É sem dúvida mais frustrante vê-la rolar novamente ao pé da montanha após ter atingido o topo. Mas muitas outras vezes a pedra fica inerte, este Sísifo mirando-a e desejando empurrá-la montanha acima. Sísifo sente que essas pedras que não são empurradas são justamente as que permanecerão no cume, mas são muito pesadas para ele, então permanece empurrando as pedras menores, atingindo o pico, e voltando para buscá-las. Tenho um inferno só meu.
O azul. O ladrilho. O silêncio da dimensão sob a água. É um momento em que me sinto protegido. Isolado. Fora do mundo. Fora dos contratos. Liberto dos desejos. Sempre gostei de apneia, ela é o momento de maior solitude que se pode ter. Offgame. Offline. Offlife. Pensei em dedicar-me seriamente a ela, tornar-me profissional, buscar recordes, ir a profundezas onde a vasta maioria não imagina ir nem de cilindro. Mas era uma pedra muito pesada para ser empurrada montanha acima. Só que não consigo mais viver com o peso da falta de força para empurrar as maiores pedras. Então empurrarei a pedra da apneia e a maior de todas elas: a da falta de força. Na piscina. Pedra na cintura. No fundo. Atinjo o ápice definitivo e saio do meu inferno particular.



Vídeo: Pilar Domingo
Texto: Renato Amado

3 comentários:

  1. O contraste do azul da água com a escuridão do texto nos levam a tentar rever os pesos de nossas pedras... profundidades perigosas...

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  2. A profundidade é atraente e perigosa como os mergulhos em apneia.
    É imergir e emergir enquanto der,deixando entrar o ar nos pulmões a cada emersão como um recém nascido ao sair do ventre da mãe ao deixar de vez a confortável bolsa d água.
    Lindos texto e imagem.

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