sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A sombra





A sombra agarra o rugoso tronco da árvore que espia a imagem que a enfrenta. Esta sou eu.Não tenho certa idade, mas sei da idade que em mim tenho. Completo sempre o dígito ideal dos anos que contemplo. Sou feita de remendo. De um orgulho saliente estou sempre a salpicar os olhos dos que passam e buscam em mim a lógica. Curiosos não me entendem. E nem conseguirão. Pois me dilato ao sol e me protejo ao vento. A magra silhueta que ostento se deforma ao mero mover de um tempo. E sou dada a desaparecimentos. Ora me veem, ora nada existe. Eu diria mesmo que sou simples. Habito cantos quaisquer e não pertenço a singulares. Sou plural de ponto a ponto. Nem a noite me faz ausente. Pois atravesso a luz e me exponho nua em bruta matéria intocada por mãos algumas. Há quem diga que sou múltipla, que engano, que causo vertigens e da retina deslocamentos. Sou a pura idolatria da visível contemplação de todo momento.

Imagem: Pilar Domingo
Texto: Letícia Palmeira

2 comentários:

  1. ótima composição em dupla, a imagem ao mesmo tempo material e abstrata da Pilar e a prosa poética condensada da Letícia entre o múltiplo e o mínimo. adorei o "Sou a pura idolatria da visível contemplação de todo momento." Parabéns!

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