sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Complementar


No curso eu aprendi que cor complementar é aquela cor que a gente vê quando olha pra outra cor e depois fecha os olhos. A cor que pisca no escuro é a cor complementar.
Verde: vermelho.
Azul: laranja.
Eu sei, não é bem isso. Mas eu nem entrei no curso pra aprender o que era cor complementar. Foi sorte mesmo. Eu entrei pra aprender a desenhar. Pra conseguir desenhar o que eu vejo quando fecho os olhos.
Porque se cor complementar é o que a gente vê quando fecha os olhos, então minha cor complementar é um rosto. Um rosto cheio de cores, assustado, que me olha de volta por poucos segundos. Poucos mas longos segundos.
Nunca consegui nem mesmo começar a desenhá-la. Sou péssima em desenho; além disso, é muito difícil conseguir me lembrar de todos os detalhes daquele rosto assustado. Toda vez que me deparo com o papel em branco, qualquer vestígio do rosto desaparece de minha memória, ainda que tenha acabado de me deparar com ele em algum canto escuro qualquer da vida.
Comentei por alto com meus colegas de curso de desenho o motivo pelo qual me matriculei. Muitos acharam que havia ali uma motivação artística, uma pesquisa, uma linha de desenvolvimento de obras no campo da abstração.
E não havia nada disso.
Havia apenas uma moça amedrontada buscando se livrar de um fantasma que a assombra quando ela está no escuro.
Só um dos rapazes percebeu o quanto precisava daquele desenho. Ele disse que já tinha trabalhado na rua fazendo retratos, e que passou alguns meses na polícia fazendo retratos falados. Disse que poderia me dar umas dicas de como desenhar aquele rosto.
- Não quero dicas. Quero o rosto. E só. Você pode desenhar pra mim?
Fomos depois da aula para seu estúdio. Já era tarde da noite. Ele me deitou no sofá, sempre muito cuidadoso.
- Fica tranquila. Só quero te ajudar.
Eu me deitei. Ele ligou um refletor muito forte bem no meu rosto. Meus olhos doíam.
- Assim que eu apagar comece a me descrever o rosto. Bem rápido. Não espere nem um segundo.
Ele contou até dez e apagou a luz.
O rosto apareceu diante de mim, imenso, colorido, assustador. Comecei a falar todos os detalhes que conseguia apreender daquele olhar monstruoso.
Alguns segundos depois, abri os olhos. Ele me disse:
- Consegui.
E me mostrou o retrato.
- Veja se era isso.
O rosto que estava desenhado no retrato era meu.

Imagem: Carlos Monteiro
Texto: Saulo Aride

4 comentários:

  1. Maria Emilia Algebaile4 de agosto de 2012 17:27

    O interior sempre a nos amedrontar....belo texto que se reflete na forte imagem! Bacana!

    ResponderExcluir
  2. incrível sintonia entre a imagem de um expressionismo colorido e o relato cheio de assustadora presença de si. Complementares...

    ResponderExcluir