terça-feira, 28 de agosto de 2012

Reciclagem


No final do dia costumava resgatar restos das vidas que se pensavam já bastadas, vividas até o fim. Recolhia latas de alumínio e seus lacres, papeis em branco, potes de vidro, roupas usadas, pedaços de coisas que um dia foram. Depois vendia o que resgatou e tudo novamente voltava a existir. Talvez em uma forma diferente, talvez com uma finalidade diversa, mas com a mesma substância, a mesma essência. Dentre embalagens vazias, contas de luz antigas, propagandas de banco, de políticos, de academias, de locadoras, às vezes encontrava uma boneca quebrada, sem braço ou sem perna. Chegava a pensar em levar pra casa, na esperança de que talvez sua mulher pudesse reformá-la. Dentre restos de comida, papeis sujos, extratos de banco, espelhos quebrados, às vezes encontrava uma bijuteria qualquer, um anel ou um colar. Chegava a pensar em levar pra casa, e dizer que encontrou na rua, na esperança de que sua mulher pudesse querer, ou rejeitar por ser quase lixo. Mas nesta noite, encontrou apenas uma carta de amor, rasgada em pedaços, dentro de um livro. Quando chegou em casa, colou os dez pedaços da carta, montando o pequeno quebra-cabeça afetivo, que se pensava destruído. Sentou-se na cama e leu, em voz alta e titubeante, as palavras rabiscadas em caneta azul. Nesta noite velou o sono absorto de sua mulher, já apropriado daquelas palavras de amor, lendo e relendo a carta, durante todas as horas até o amanhecer.

Fotografia: Magali Rios
Texto: Danielle Costa

9 comentários:

  1. Acho que a Dani ainda está na fase "encantada pelo silêncio". =PP Adorei o conjunto da obra. Parece que a Dani conseguiu encher de lirismo a imagem da Magali, que, à primeira vista, direcionava o trabalho para um caminho diametralmente oposto, com uma pegada mais grunge e 'beatnik'.

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  2. Adorei o texto! Inteiramente inesperado!

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  3. Maria Emilia Algebaile29 de agosto de 2012 14:36

    Muito boa a postagem de hoje! Parabéns pela foto de estreia, Magali! E parabéns, Dani, pelo texto tão sensível!

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  4. Fiquei pensando na reciclagem, se fosse possível, de um amor que depois de tanto tempo, já é quase lixo. A reciclagem, nesse caso, fica por conta de quem sente.
    Parabéns pelo texto e imagem!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. O texto recriou a imagem, um olhar sobre outro olhar, ambos sensíveis. Muito bom! Parabéns à dupla criativa.

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  7. Muitcho bom!!! Lembrei de Sophie Calle...

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  8. como num poema de drummond, a flor rasgou o asfalto e a carta de amor rasgou o lixo. no resgate da carta está a obra do mendigo, dando uma vida nova ao q já foi morto. mas no final, quem deu vida nova foi a carta ao mendigo, o reciclando pra vida e para o afeto. ótimo tudo. parabéns á dupla!

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