segunda-feira, 24 de setembro de 2012

BABA E LÁGRIMAS


O homem acordou muito tarde e se levantou. Arrancou suas roupas com as unhas e os dentes, feito um animal selvagem. Depois começou a olhar para a luz, no teto. A luz feria a sua vista, mas ele continuou olhando. As lágrimas logo começaram a correr por sua face. Ele inclinava a cabeça de forma que as gotas de choro caíssem dentro de sua boca. Ele abria muito a boca e ficou muitas horas olhando para a luz, pelado, chorando, de boca aberta, cercado pelos pedaços de seu pijama rasgado. A saliva se acumulava e o homem babava muito, de forma ridícula. Escorria pelo seu peito e pela sua barriga, até chegar ao seu pau. Ele babou, babou e babou, com a boca completamente aberta, pelado, olhando para a luz, chorando, as lágrimas caindo em sua boca, cercado pelos pedaços de seu pijama rasgado.

Após algumas horas, a mulher do homem apareceu. Ela ficou olhando praquele homem ridículo, naquela situação ridícula. Então ela resolveu se ajoelhar e encostar a cara na barriga dele, de forma que a baba escorresse toda para dentro de sua boca. Ela sentia tesão pela baba do marido. Ficou lá muitas horas recebendo a baba do marido diretamente em sua boca. A baba saía da boca de seu marido, escorria pelo peito, barriga, e entrava na boca da esposa, que logo começou a babar o excesso de baba do marido, que era muito abundante. A baba que escorria da boca da esposa caía nos pedaços de pijama rasgado em que a mulher se ajoelhava.

Algumas horas depois apareceu o filho. O filho viu o pai pelado, chorando, olhando pra luz, as lágrimas caindo em sua boca, a boca aberta, babando, a baba escorrendo pelo peito, pela barriga, caindo dentro da boca da mãe, a baba da boca da mãe escorrendo e caindo no chão, nos pedaços de pijama rasgado do pai. Ele resolveu deitar no chão, num pedaço de pijama rasgado e babado, olhando pra luz, com a boca aberta, posicionado de forma que a baba que caía da boca da mãe caísse dentro da sua. Ele começou a chorar por causa da luz que feria seus olhos e as lágrimas caíam no pedaço de pijama rasgado no qual deitava sua cabeça. Com o passar das horas, a baba, que caía da boca da mãe, que originalmente tinha saído da boca do pai, misturada às lágrimas, começou a se acumular na boca do filho e escorrer para todos os lados, babando suas bochechas, narinas, queixo, olhos, e o pedaço de pijama rasgado no qual deitava sua cabeça. Com a boca lotada de saliva e lágrimas do pai, que haviam passado pela boca da mãe, e as narinas obstruídas por essa mesma composição, o menino acabou morrendo sufocado.

Quando a noite caiu, o pai resolveu parar de babar e de olhar pra luz. Ele fechou a boca e os olhos. Assim, a baba e as lágrimas pararam de escorrer pelo seu corpo e de cair dentro da boca da mãe. Então a baba lacrimejada parou de cair da boca da mãe e de afogar o filho morto. De qualquer forma, ainda havia bastante substância dentro da boca do filho, que morreu de boca bem aberta. Os pais olharam para baixo e viram o filho. Eles não haviam notado que o filho estava ali até agora. Estavam muito concentrados, e o filho não havia feito qualquer barulho que denunciasse sua presença, nem na hora da morte.

Os pais pegaram, cada um, um canudinho e beberam toda a saliva com lágrimas que estava na boca do filho. Isso lhes dava tesão. Depois de beberem tudo, transaram em cima do corpo do filho morto e se deitaram para dormir. Com a luz acesa.




Texto: Rafael Sperling
Imagem: Pacha Urbano
Rodada 36 - Invertida

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