sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Breve ensaio político sobre a praga-da-batata

O racionamento da batata tomava proporções inimagináveis. Devido a uma praga desconhecida que atacou as folhas do cultivo na última safra, o governo da Colômbia decidiu abrir uma polpuda linha de crédito aos produtores, que poderiam escolher qualquer tipo de cultivo, à exceção da batata, naturalmente.
Rapidamente, a praga se espalhou. Brasil, Peru, Chile, Bolívia. Num instante, toda a América do Sul já impunha sanções ao cultivo da batata, e diversas manifestações da praga-da-batata, como ficou conhecida, começaram a surgir nos batatais europeus, asiáticos e, em algumas ilhas do Caribe e do Pacífico.
Os órgãos mundiais de combate à fome e de promoção da saúde estabeleceram uma resolução conjunta, proibindo o comércio e o consumo da batata em todo o mundo, pois não sabiam os malefícios que a praga-da-batata poderia causar no ser humano.
Logo vieram os fiscais-da-batata, que eram os responsáveis por evitar que houvesse consumo da batata nas grandes cidades. A profissão era extremamente bem-remunerada e os fiscais-da-batata tinham poder de polícia.
Os fiscais eram necessários porque o tráfico de batatas aumentou muito com a proibição. Alguns grupos começavam a plantar batatas escondidos, e alimentavam redes de tráfico internacionais.
Havia pesquisadores em todo mundo debruçados sobre a praga-da-batata, tentando comprovar seus malefícios. No entanto, as evidências eram muito pouco claras. Noutra ponta da corrente, começaram a surgir grupos que defendiam o consumo da batata. Estes pesquisadores sustentavam que a praga-da-batata não tinha seus efeitos negativos comprovados, e que sim, era prazeroso comer batatas.
Então, em pouco tempo o mundo se dividiu entre os pró-batata e os pró-vida. Os pró-vida tinham um viés claramente mais conservador, e sustentavam que não comer batatas era uma prova de amor à própria vida. Os pró-batata, por sua vez, entendiam que, quanto mais batata, mais vida.
No auge das manifestações mais calorosas de ambos os lados, uma notícia estremecia a humanidade. Um pesquisador tcheco acabava de descobrir a cura para a praga-da-batata. Ainda levaria uns cinco anos para que o agroquímico e sua técnica de manejo pudessem ser utilizados em escala industrial.
Nestes cinco anos, após o anúncio da cura tcheca, algumas outras formas possíveis de cura também foram noticiadas por países como África do Sul, Brasil, Nova Zelândia, Suíça e Suécia. Todos eles com um tempo de latência grande, cuja aplicação industrial demoraria, por sua vez, também uns cinco anos.
O método tcheco chegou. Seu lançamento, no entanto, não foi o sucesso retumbante que esperavam. Algumas pessoas alegavam que a batata possuía um gosto estranho, levemente aluminado. As soluções dos outros países também foram pouco a pouco chegando ao mercado. Cobre, estanho, tungstênio. Todos os países desenvolveram soluções muito parecidas tecnicamente, utilizando altas doses de metais que prejudicavam o desenvolvimento da praga-da-batata.
Os grupos pró-batata e pró-vida se reorganizaram. Houve um grupo que alegava que, sob qualquer hipótese,  a batata não poderia ser consumida. Outro grupo alegava que só as batatas curadas poderiam ser consumidas. No entanto, um terceiro grupo, alegava que só as batatas que possuíam a praga-da-batata poderiam ser consumidas e que, na verdade, elas eram o que agora se entendia por “verdadeiras batatas”.
O grupo das verdadeiras batatas tinha uma linha de pensamento de que a praga-da-batata era a real responsável pelo bom sabor da leguminosa. Sua linha mestra era a de fabricar em laboratório a praga-do-inhame, a praga-da-mandioca, a praga-da-batata-doce, dentre outras.
Com o passar do tempo, e mudando sempre, a bancada das verdadeiras batatas em cada um dos países ia se consolidando. E vieram então os partidos e as bancadas das falsas batatas, das semibatatas, do inhame-curado, etc...
Desde então, todo o espectro político da humanidade vem se desenvolvendo em torno destas questões extremamente úteis e relevantes para o desenvolvimento da humanidade.




Texto: Igor Dias
Imagem: Fernanda Franco
Rodada 36 - Invertida

2 comentários:

  1. ahahaha, batata q acontece isso de fato e certamente. o consumo da batata afeta a consciência. o problema é q a batata já vem malhada antes de a gente nascer... e batata q a imagem da fernanda é o q há de rolar...

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