terça-feira, 9 de outubro de 2012

COMPLÔ

Quando Rômulo se desvencilhou do metrô lotado, a rua parecia-lhe mais cheia do que o vagão em que estivera há pouco e, pior, os sisudos rostos, engravatados ou embonecados, o olhavam com desdém, cobrando-lhe uma postura na vida, perguntando-lhe, sem nada dizer, o que ele andava fazendo que merecesse algum crédito. Ouviu um senhor atirar-lhe um ‘inútil’, e outro que sussurrara ‘cretino’, então seguiu adiante, pretendendo chegar logo à agência de empregos onde deixaria o curriculum que já quase se esfarelava debaixo de seu braço. Antes de entrar no prédio, que parecia bambear, engoliu seco e sentiu que um grãozinho parecia ter acabado de se formar, por desgosto, em sua goela. Entrou no prédio e vislumbrou a fila para o elevador, onde todos pareciam querer estrangulá-lo, mas ele manteve-se imóvel, o curriculum pingando. O ascensorista era o pior de todos, exigindo o andar correto. Todos indagavam em coro ‘o que tem feito de útil nos últimos seis meses?’, então ele se viu expelido do elevador e ao engolir a saliva que lhe restava na boca, já do lado de fora do prédio que se inclinava, o grão já não era mais grão, era uma uva grudada em sua glote. Rodou pela Sete de Setembro, sem saber que direção tomar, pois até os ambulantes, quando o viam, acusavam-no de alguma falta. Subiu, enfim, no ônibus, porém lá também o cobrador cobrava mais do que a passagem e os demais passageiros o escrutinavam, com especial interesse em sua proposta de vida. Rômulo sentiu-se regurgitando e de um só golpe vomitou a ameixa que tomara o lugar da uva em sua garganta. A cara de nojo dos passantes fez Rômulo se encolher mais ainda. Ouvia perguntas acusatórios de todos os lados, o mundo inquiria seus porquês e tinha pressa, Rômulo tinha medo. Saltou do ônibus e subiu a rua, suado e amarrotado, a camisa desabotoada, a cara desbotada. Novo grãozinho acomodava-se em sua garganta. Finalmente, Rômulo alcançou a casa e jogou o que sobrava do curriculum amarfanhado no lixo. Outro dia arrumaria emprego, outra hora encontraria a saída. Agora ficaria quieto, respirando sem ruído, à espera de que todo aquele complô passasse.


Texto: Vivian Pizzinga
Imagem: Marcelo Damm
Rodada 36 - Invertida

8 comentários:

  1. Nossa q conto e imagens maravilhosos, fantásticos, insólitos, estranhados. o clp ainda nos reserva uma surpresas de ferir os ossos! parabéns à dupla, pois arte é isso aí q aponta para o q não está aí...

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  2. Excelente conto imagem!
    Rômulo e o complô da sua própria mente.Um grão de perseguição a lhe torturar a garganta. Muito bom!

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  3. Excelente conto imagem!
    Rômulo e o complô da sua própria mente.Um grão de perseguição a lhe torturar a garganta. Muito bom!

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  4. Lendo esse texto e vendo essa imagem, me ocorreu uma certa lembrança. Quantas vezes nos sentimos como Rômulo...As vezes até mais do que precisamos. Alias não precisamos nos sentir assim. Valorizamos demais a mente alheia. Muitas das vezes os olhos estão em nossa direção, mas podemos escolher recebe-los ou não...depois de compreendida a dor de Rômulo, fica a lição: Os dias estão para serem vividos e no dia seguinte ele seguirá o seu destino. Beijo! Raphaela Cotrim.

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  5. Nossa, que post ótimo! Texto e imagem surpreendentes, angustiantes, sufocantes. Adorei!

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  6. muito bom o conto
    dá pra sentir a nóia do cabra

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